sábado, 17 de dezembro de 2016

Controle e censura nos cinemas, por José Augusto Jensen

Película de exibição obrigatória no início de cada sessão nos cinemas paranaenses. 
Foto: Acervo pessoal.

Certificado de censura cuja frente era projetada no início de cada filme,
trailer, documentário, cine-jornal. 
Foto: Acervo pessoal.

Carimbo de autorização que deveria estar em todo material 
publicitário, cartazes e fotos. (Foto: Acervo pessoal).

Publicado originalmente no site da revista Ideias, em 5 de setembro de 2015.

Controle e censura nos cinemas.
Por José Augusto Jensen.


Antes da ditadura militar, havia o Departamento de Imprensa e Propaganda ao tempo de Getúlio Vargas, que já classificava os filmes por faixa etária. Livre, 10 anos, 12 anos, 14 anos, 18 anos, 21 anos; não era orientativa, era proibitiva mesmo. Cada cinema tinha na plateia uma poltrona demarcada para um agente da polícia fiscalizar.  Também o Juizado de menores não permitia a entrada de menores de 14 anos à noite, ainda que acompanhado, mesmo passando um filme infantil. Não podia deixar entrar, pois o cinema era multado, os jovens tinham que mostrar os documentos ao porteiro, comprovando a idade. A atividade era bastante controlada.

Depois de 1964, veio o Ministério da Justiça e Negócios Interiores, Departamento Federal de Segurança Pública, Serviço de Censura de Diversões Públicas. Para cada filme, documentário ou trailer, era obrigatória a exibição do “certificado de censura cinematográfica” na tela, e na gerência, tinha que ter o original impresso, que no verso continham outras informações, inclusive com os cortes, ou outras restrições, pois os agentes poderiam solicitar a qualquer momento verificações. Outra coisa é que estes certificados tinham um prazo de validade, a cópia tinha que ser destruída ou revalidada, quando do interesse da distribuidora do filme. Muitos cinemas na época promoviam exibições de filmes famosos, com anúncios como “última chance para ver esta obra”, antes do recolhimento e destruição da cópia. Também os cartazes ou fotos de publicidade tinham que ter um carimbo de autorização para serem expostos.

As restrições não eram só políticas, mas também quanto às drogas ilícitas, (não era o caso do cigarro, por exemplo), atentado aos “bons costumes” ou maus hábitos, violência exagerada, etc. Nu frontal, nem pensar.

“Laranja Mecânica”, (Clockwork Orange), 1971, direção de Stanley Kubrick, recebeu cortes, nos nus principalmente. O diretor exigiu a exibição no Brasil sem cortes. Solução negociada com a censura pela Warner, distribuidora do filme, após muitos embates: imprimir bolas pretas tapando os órgãos dos atores. Provocavam risos na plateia aquelas bolinhas correndo pela cena. Ridículo, mas foi a solução encontrada para vermos o tão aguardado filme, pois a ameaça é que não seria exibido no Brasil, como tantos outros na época. Qualquer coisa, principalmente em filmes europeus, a censura era imposta como 18 anos, já que o cinema americano tinha seu próprio código entre os produtores, que achavam mau negócio apresentar o que poderia ofender a plateia diminuindo a renda na bilheteria.

Mesmo com tudo conforme a lei vigente, aconteciam percalços. “Dona Flor e seus dois maridos”, com Sônia Braga, José Wilker, direção Bruno Barreto, 1978. Cines Lido e Condor, exibição simultânea, pois o filme vinha obtendo grande sucesso de público. O Luís Carlos Barreto, produtor, enviou uma cópia somente, com o certificado, tudo certo. Nesta época, os filmes eram exibidos em partes de 20 minutos, cada cinema com dois projetores, o que neste caso, além da defasagem nos horários das sessões, um empregado ficava correndo de um cinema a outro levando um a um os rolos de filme para cada cabine de projeção. Zito Alves Cavalcanti então gerente, em seu escritório no Cine Lido, quando entra o rapaz da censura e pediu para ver o certificado. O Zito mostrou e o agente disse, conforme seu relato:
– Aqui diz corte e não foi cortado! Amanhã me mande o operador no Condor e nós vamos fazer os cortes.
– Quem sou eu para impedir a polícia?
No dia seguinte, o fiscal do filme (que tinha a função de verificar a exibição e o número de espectadores para confrontar a renda), vendo aquilo telefonou para o Barreto, no Rio. Ele retornou o telefonema, esbravejando dizendo que tinha autorizado a cortar:
-Eu vou aí, e quem vai pagar as despesas?
E continua o Zito, “Para minha surpresa, três horas depois, chega o Barreto esbaforido no Cinema. Ele me mostrou um documento da Polícia Federal, Serviço de Censura, onde estava escrito que as cópias estavam regularmente cortadas. Papel que não tinha sido enviado para a PF do Paraná. Ele foi à Polícia, falou com o agente, voltou ao cinema e emendou todos os pedaços de volta. E o filme passou duas semanas simultâneas nos cines Condor e Lido e mais nove semanas no Lido. Para ver como eram as coisas. Em outra ocasião, apreenderam três filmes, não lembro quais nem a razão, mas acho que era problema político, pois não tinham cenas de sexo. Levaram as cópias para a PF, tive que ir junto como testemunha, e assinar o auto de apreensão. As cópias estavam com os certificados, tudo em ordem, não sei o porquê do acontecido, por isso não me prenderam, até fiz amizade com o pessoal, um tal de Moacir, tinha sido guarda de trânsito no Rio, e depois chefe da censura aqui. Em meados de 1974, o Cine Condor exibiu “As Fêmeas”, o primeiro filme da Vera Fischer.

Mandei pintar um painel publicitário enorme, copiado do cartaz do filme, que foi colocado na frente do cinema na Ébano Pereira, ela com os seios de fora. Meia hora depois de içado, toca o telefone e o tal Moacir, com seu sotaque carioca diz: – Seu Zito, as velhinhas estão terríveis hoje, me disseram que o senhor botou na frente do Cine Condor um cartaz da Vera Fischer com os seios de fora, respondi a elas que era impossível, que o senhor não seria capaz de fazer uma coisa destas. E lá foi o pintor, colocou uma escada e pintou um sutiã na Vera. Dizem que o primeiro sutiã não se esquece, este eu não esqueci! As velhinhas eram de uma associação católica, que percorriam os cinemas em busca de alguma coisa e telefonavam para a polícia denunciando.”

Perguntei ao Zito como foi que conseguiram exibir “O império dos sentidos” (Ai no Korida, direção de Nagisa Oshima, 1975), considerado por alguns, filme pornô. Ele me contou que existiam no Brasil algumas distribuidoras de filmes japoneses, e dentre elas a Toho, que importava filmes de arte, como os de Akira Kurosawa, e eles importaram o Império dos Sentidos. A censura não permitia a exibição deste tipo de filme, arte ou não. Mas um sócio da Empresa Cinematográfica Sul de São Paulo, que tinha contatos em Brasília, obteve o que chamam de “informação privilegiada”, de que liberariam um lote de filmes artísticos por noventa dias. Ele foi à Toho, comprou o filme barato, pois eles não conseguiam a liberação.

Como o Cine Plaza era explorado por esta empresa em Curitiba, talvez tenha sido a primeira capital a exibir o filme, pois eles tinham uma brecha na programação e puderam exibi-lo rapidamente, correndo contra o tempo. Conseguiram mais prorrogações da censura, fizeram mais cópias e exibiram no país inteiro.

Poderia contar inúmeros outros casos, mas além da censura, havia o medo de alguma reação desfavorável do público, esvaziando o cinema.

Hoje, porém, existe outro tipo de censura, talvez mais prejudicial, pois silenciosa, já que não existe movimento algum para denunciá-la. É a recusa dos exibidores, em passar filmes que eles não consideram rentáveis. Muitos títulos nem chegam ao Brasil, e os que chegam estão nas prateleiras das distribuidoras, passam no Rio, São Paulo, Recife e outras cidades, e não são lançados por aqui. Como também não existe mais crítica de cinema ou nem mesmo guia de consumo, nem sabemos da existência destas obras. Só querem os Homens-aranha, Formiga de Ferro, Morcego, lixo promovido pela publicidade da mídia, que em uma semana se esgota, fica velho, esquecido, exibido em quase todas as salas, restringindo as opções.

Talvez garimpando em uma ou outra locadora mais completa, e temos que vê-los em casa, na TV, encontramos estes filmes que são chamados de “arte”. Nem todos o são, apenas fogem do lixo promovido. Solução? Espaços culturais acessíveis e baratos, pois se manteriam com um público fiel e pensante. Saudades da outrora Fundação Cultural de Curitiba ou um Museu da Imagem e do Som, anos mortos. Ouço muitas pessoas dizendo que o cinema acabou, que não existem mais filmes que as façam sair de suas casas. Claro que têm, mas não por aqui.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistaideias.com.br

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