sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Cinefilia: o que é isso?, por João Batista de Brito


Cinefilia: o que é isso?
Por João Batista de Brito

Em sentido amplo, a palavra cinefilia significa ´amor ao cinema´, mas, o problema é que o amplo não é o sentido mais usado; assim, se todo cinéfilo ama a arte cinematográfica, nem todo mundo que gosta de cinema pode ser chamado de cinéfilo. Ou pode?

Para esclarecer eventuais diferenças semânticas é melhor contar a história da palavra, que nasceu nos primórdios da década de 20. Segundo consta, foi o escritor e teórico italiano Ricciotto Canudo quem primeiro cunhou o termo ´cinefilia´, para, já nessa época, designar, justamente, a paixão que se nutria pelo que ele mesmo conceituou como “a sétima arte”.

Apesar das muitas associações do cinema mudo com as vanguardas da década de 20 (futurismo, surrealismo, etc), o termo, contudo, só passou a ser usado de forma sistemática a partir da segunda metade dos anos 40, e num lugar muito particular: Paris. Foi no pós-segunda guerra que toda uma inteligentsia francesa começou a voltar-se para o cinema com uma atenção toda especial, numa atitude, não apenas diversional, mas de estudo e pesquisa. Foi então e aí que começaram a proliferar os cineclubes, locais de culto à sétima arte, mas também de reflexão sobre o valor estético, ético, humano e social desse novo meio de comunicação.

Revistas e livros passaram a ser editados sobre a importância artística do cinema, e logo logo, o resto do mundo acompanharia a turma francesa nessa postura, reflexiva e estudiosa, perante a tela. Sem demora o termo francês ´cinéphilie´ (pronuncia-se: /cinêfilí/, com acentuação oxítona) seria traduzido para outras línguas, e daí a pouco estariam os anglo-americanos falando de ´cinephilia` e os brasileiros de ´cinefilia´.

Inevitavelmente, a palavra nasceu em sentido restrito: o cinéfilo concebido pelos franceses e divulgado mundo afora não era qualquer espectador de cinema. Era um com cultura cinematográfica, o que significa dizer que conhecia a história do cinema; interessava-se pela sua linguagem, sua técnica, sua semiótica e sua teoria; não se limitava a ver muitos filmes, mas também lia sobre o assunto e queria discutir, analisar, interpretar. Para os franceses dessa época, quem não coubesse nesse ´modelo´ podia até ser um fã, mas nunca um cinéfilo.

É desse sentido restrito da palavra que se ocupa o jovem crítico e historiador – sem coincidência – francês Antoine de Baecque no seu livro mais recente “Cinefilia: invenção de um olhar, história de uma cultura”, que a CosacNaify acaba de editar entre nós.

Resultado de pesquisa exaustiva, o livro reconstitui todo o clima cinefílico de um período que vai de 1944 a 1968 – tirante o amor comum ao cinema, um período nada tranqüilo, sobretudo do ponto de vista ideológico, e mesmo estético.  De André Bazin a Henri Agel, passando por Truffaut, Chabrol e Godard, nenhum dos grandes vultos fica de fora da acalorada discussão sobre a arte do cinema. As revistas francesas da época foram cascavilhadas, junto com jornais e correspondências dos envolvidos, de forma a tornar o relato de Baecque o mais fidedigno possível.

Tentando não tomar partido, Baecque apresenta e analisa, para o leitor, as várias “correntes de pensamento” por trás das intervenções e propostas desses tantos pensadores do cinema – uns comunistas, ou mesmo stalinistas; outros cristãos, ou mesmo católicos; outros ainda, direitistas, ou mesmo fascistas; mas todos perdidamente apaixonados pelo “écran”.

Um fato suficientemente conhecido é, por exemplo, o modo corajoso como os colaboradores da Revista “Cahiers du Cinéma” descobriram, para o mundo, o valor do filme B americano, ao que opuseram a nefasta “qualidade francesa”, e o livro de Baecque choveria no molhado se ficasse nisso. Não fica.

Um dos seus méritos é fazer ver que os “Cahiers” eram apenas um dos fatores no meio de uma polêmica acirrada e, como dito, nada tranqüila. Seu jeitão “neo-formalista” (assim eram apelidados os seus articulistas) fazia contraste com o engajamento político de, por exemplo, uma revista de cinema igualmente importante, a “Positif”, para não dizer que era, com freqüência, rebatido por vozes individuais, como a do comunista intransigente George Sadoul, o mais famoso historiador do cinema francês e mundial.

Para quem olha de fora parece ter sido fluente o processo pelo qual Hitchcock – cineasta considerado meramente comercial em seu país – foi então erigido em mito; o livro de Baecque nos dá uma idéia clara da reação desfavorável que os futuros nouvelle-vaguistas enfrentaram, para conseguir esse intento.

Das batalhas ideológicas da época era impossível não desaguar em questões pessoais, e Baecque não hesita quando tem que fazê-lo. Dois exemplos: (1) nada mais comovente do que ler o penoso esforço de re-adaptação política do até então stalinista ferrenho Georges Sadoul, depois da morte e expurgo do ditador russo, quando os seus podres horrendos vieram à tona no governo de Kruschev. (2) igualmente, nada mais embaraçoso do que constatar que o jovem François Truffaut era, sim, um reacionário assumido, homófobo declarado, com atitudes éticas não propriamente elogiáveis, como tomar emprestados roteiros inéditos de cineastas consagrados na França para, depois de cordialmente devolvidos, estraçalhá-los na imprensa.

Uma constatação melancólica do leitor é a de como, no campo da arte, os comprometimentos ideológicos atrapalham. Em várias instâncias, é possível notar que muitas das opiniões mais radicais, assumidas e mantidas publicamente com ênfase, contra filmes ou cineastas, advinham um pouco mais de reações aos “inimigos” ideológicos e um pouco menos de convicções bem pensadas. Fosse como fosse, é patético passar a vista sobre os equívocos interpretativos, dos quais, – repito, malgrado a paixão comum ao cinema – poucos dos críticos e historiadores da época escaparam.

Dou dois exemplos que me tocam de perto.

Fui sempre um admirador dos “Cahiers du Cinéma” dos anos cinqüenta pelo empenho que tiveram em demonstrar a importância de cineastas hollywoodianos, aparentemente comerciais, como Frank Tashlin, Otto Preminger, William Wyler, Howard Hawks, Vincente Minnelli, Nicholas Ray, King Vidor, George Cukor, Joshua Lolang, Fritz Lang, Richard Fleischer, Don Siegel, Tay Garnett, Allan Dwan, Edgar Ulmer, e tantos outros. Contudo, nunca entendi por que John Huston não fez parte dos eleitos, um cineasta que, desde o seu primeiro “Relíquia macabra” (1941) só vinha crescendo e, tem mais, com o seu tema recorrente do fracasso inevitável, corajosamente contradizia o chamado “american way of life”.

Só agora, no livro de Baecque, descubro o porquê. É que Huston estava entre os preferidos dos “esquerdistas” da revista “Positif”, e, portanto, para não concordarem com os inimigos ideológicos, os “Cahiers” faziam vista grossa de sua qualidade cinematográfica e o mantinham fora de seu panteão. Pode?

Meu segundo exemplo é com Samuel Fuller, possivelmente o cineasta que mais polêmica causou junto aos cinéfilos franceses da época, por uma razão simples: no conteúdo, parecia fascista; na forma, se revelava um mestre. Quando o seu “Anjo do mal” (“Pick up on South Street”, 1952) recebeu um prêmio especial do júri de Veneza, a turma naturalmente se dividiu e vieram elogios de um lado – o da direita – e pauladas do outro – o da esquerda. Fulleriano inveterado, Luc Moullet inventaria uma fórmula para “explicar” o cinema de Fuller com aquela frase, depois tornada famosa por Godard e Rivette: “a moral é uma questão de travellings” – mas quem foi que disse que isso resolveu o problema?

Pois bem, não muito tempo atrás, organizei uma sessão de cinema com amigos, todos intelectuais sensíveis e inteligentes, para ver uma tríade de filmes noir que eu, por sorte, havia gravado de um canal de televisão paga. O primeiro filme exibido, “Um retrato de mulher” (Lang, 1944) arrancou aplausos calorosos de todos, porém, o segundo filme, por mera coincidência justamente o “Anjo do mal” de Fuller, foi quase vaiado, visivelmente por causa de seu conteúdo supostamente anti-comunista. A reação ao filme foi tão negativa que me espantei, e fiz esforços sobrehumanos para defendê-lo como um noir digno de nota. Incrível, mas, mais de meio século depois da época enfocada no livro de Baecque, as pessoas continuavam subestimando o cinematográfico em favor do ideológico e repetiam os equívocos do passado. Pode?

Acho que nem precisa dizer o quanto aprendi e também o quanto me diverti lendo o livro de Baecque. Os franceses podem não fazer o melhor cinema do mundo, mas, com certeza, são os que melhor pensam o cinema – e este livro é uma evidência gritante disso.

Só discordo um pouco do limite cronológico que o autor propõe ao fenômeno da cinefilia que, segundo ele, teria acabado nos embates políticos de 68. Ora, se a particular “cinefilia francesa” (sentido restrito do termo) porventura acabou, por sua vez, não acabou a cinefilia universal (sentido amplo).

O fato é que hoje o termo é usado de modo mais leve e mais solto, para incluir tanto o especialista (crítico, historiador, pesquisador) quanto o fã que acompanha os lançamentos e está minimamente familiarizado com diretores, atores e atrizes. Enfim, uma questão menos de conhecimento e mais de paixão.

Texto e imagem reproduzidos do site: imagensamadas.com

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Projecionista na enroladeira, rebobinando película 35mm


Técnico na mesa de edição


Projecionista na Cabine de Projeção


Projecionista na Cabine de Projeção


Projecionista na Cabine de Projeção


Coleção e Cineminha de Jim Zaas (Jim Zaas collection)










Fotos postadas por Pancho Ds/Facebook, no Grupo/Facebook/Projectionists International
Imagens reproduzidas do Grupo Projectionists International - Facebook

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Projeto Cinema no Beco

Projeto Cinema no Beco: toda quinta-feira, cerca de 50 crianças assistem a filme 
ou animação com a natureza como pano de fundo
Foto: Urbano Erbiste/Extra

Publicado originalmente no site do Jornal Extra, em 22 de abril de 2015

Morador da Maré coleta óleo usado, vende e, com a renda, leva cinema a crianças

Por Bibiana Maia e Roberta Hoertel 

Um litro de óleo usado, se descartado na pia ou no vaso sanitário, pode poluir uma quantidade de água limpa equivalente a um caminhão-pipa inteirinho. Mas, na Maré, o que sobra da fritura se transformou em cinema para as crianças. O projeto Cinema do Beco, criado há um ano e meio pelo morador Bhega Silva, de 56 anos, é financiado, em parte, com a venda de óleo de cozinha, recolhido de porta em porta na comunidade.

 Crianças recebem pipoca e refrigerante.  Endereço muda a cada semana
 e é anunciada em carro de som (Foto: Urbano Erbiste/Extra)

— Coloquei na cabeça que ia fazer um cinema. No início, me chamavam de doido, mas hoje acham lindo — conta Bhega, que também é músico e trabalha, de bicicleta e alto falante, fazendo propaganda do projeto na comunidade.

Bhega: preocupação com o meio ambiente remete à sua infância, na Maré 
Foto: Urbano Erbiste/Extra

Determinado, ele passou a recolher o óleo usado pelos moradores para vender, a R$ 0,80 cada litro, para uma refinaria de Bonsucesso. Cerca de 200 litros foram o suficiente para comprar equipamentos, como a lona para a projeção.

— Lembrei que o pessoal joga fora o óleo de cozinha e comecei a fazer a campanha na comunidade. Eu passo de bicicleta, e o pessoal doa. Ainda divulgo que o óleo entope e atrapalha o saneamento.

A cada semana, a projeção acontece em uma rua diferente, e o endereço é divulgado por carro de som. Com a popularização, o projeto ganhou parceiros que doaram projetor e fornecem pipoca e refrigerante para as cerca de 50 crianças que comparecem a cada sessão. Toda quinta-feira, são projetados filmes e animações que têm como pano de fundo a valorização da natureza, como “Tainá” e “Rio”, além de vídeos produzidos por Bhega.

Iniciativa conquistou parceiros, que patrocinam parte do projeto 
 Foto: Urbano Holanda/Extra

— Falo sobre dengue, poluição. Não tenho formação de meio ambiente. Aprendi vendo e ouvindo. Vamos fazendo devagarinho, falando da importância do planeta.

O interesse pelo tema vem da infância, na Maré. Bhega lembra-se dos tempos de fartura, em que pescadores doavam peixes pescados na Praia de Ramos, hoje poluída.

— Minha mãe me mandava buscar peixe, hoje não tem condições. Prometi que, enquanto estivesse vivo, faria algo pelo planeta, mesmo sendo trabalho de formiguinha.

Exemplo

Diante do problema dos baixos índices de coleta seletiva nos municípios do Rio, como o EXTRA mostrou no domingo e na segunda-feira, o presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alerj e ex-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc afirma que há medidas simples e baratas para serem tomadas e que podem elevar os níveis de reciclagem dos municípios.

— Primeiro, é preciso transferir a responsabilidade da coleta seletiva para a Secretaria de Meio Ambiente. Na maioria dos municípios as empresas de limpeza urbana são da Secretaria de Obras. Eles não têm consciência ambiental e tratam como qualquer outro serviço — explicou.

De acordo com Minc, um dos melhores índices do país está em Londrina, no Paraná. Desta experiência, que o deputado conheceu de perto, ele vê outras soluções para o problema do Rio. Uma delas é a parceria dos municípios com as cooperativas de catadores, viabilizando o trabalho dos profissionais. A construção de galpões ou ecopontos também é apontada como uma solução, além da conscientização ambiental.

— A solução é clara e não é cara. Os professores já estão na escola, os alunos também. Ensinando a garotada, você pega também os pais, tios, a família toda. As próprias escolas podem se converter em centro de reciclagem — explica Minc, lembrando que mais de 20 escolas fazem isso no estado do Rio.

Para o deputado, o projeto de Bhega, na Maré, é um exemplo de que é possível ajudar em todos os níveis de atuação:

— É uma atividade muito bacana, muito bonita. Mostra como é possível ajudar. Colaborar com o meio ambiente. E como esse esforço, de uma pessoa, dentro da Maré, teria um resultado muito maior se recebesse um incentivo, uma pequena kombi, galões.

Texto e imagens reproduzidos do site: extra.globo.com

Sucateiro que fez da sucata... Um Cinema

Foto: André Lorenz Michiles

Publicado originalmente no blog ceuvagemichiles, em 24 de dezembro de 2016 

Sucateiro que fez da sucata... Um Cinema 

José Luiz Zagati, morreu neste ano 2016. Soube através de um obituário na FolhaSP. Um sucateiro apaixonado por cinema e que fez da sua casa uma sala de exibição de filmes em Taboão da Serra/SP.

Quando entrevistei (2013), o seu espaço encontrava-se em decadência. Mas, ele sempre entusiasta, mesmo assim já havia jogado a toalha, não havia grana. A família, era visível, queria que ele encerrasse de vez aquela "aventura", aquilo sangrou as economias da família, as filhas via o cinema como uma espécie de adversário. Neste sentido, creio, depois da sua morte, eles devem ter devolvido para a sucata, o patrimônio que Zagati construiu da mesma sucata.

Como escreveu José Luiz Vieira, um incansável pesquisador do cinema brasileiro: "Uma história, enfim, que se repete por todo o país (e pelo resto do mundo também), infelizmente. A gente fica impotente pois não tem como intervir (e nem pode e nem cabe) quando a família não tem posses, não tem sensibilidade e interesse por nada daquela ''velharia"...Triste mesmo. Volta e meia me vejo em situações mais ou menos parecidas. Daria para escrever um conto, um ensaio grande..." 

Texto e imagem reproduzidos do blog: ceuvagemichiles.blogspot.com

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Projecionista na Cabine de Projeção


Projecionista na Cabine de Projeção


Projecionista na Cabine de Projeção


Cineminha


Filme: "Cinema Paradiso" (1988), de Giuseppe Tornatore






Texto publicado originalmente no blog Hoje tem Cinema

Cinema Paradiso *

O filme Cinema Paradiso revela-se uma sensível homenagem à sétima arte. Esta homenagem fica evidente nas referências aos filmes que aparecem ao longo da história, mas também se mostra na própria vida do personagem Salvatore, o Totó. Um menino pobre, crescendo numa pequena cidade da Itália, sem a presença do pai que, ao que tudo indica, jamais voltará da guerra, consegue agregar magia, aventura, romance, humor ao seu dia-a-dia, graças a sua curiosidade e vivacidade, típicas da idade, que o levam, sempre de novo, ao cinema da cidade.

Mesmo crescendo cercado por repressões das principais instituições da sociedade – a Escola, a Igreja e a família – Totó se mostra uma criança inconformada, burlando regras na escola, indo contra as ordens da mãe, que o proíbe de frequentar o cinema, e achando a maior graça do padre da cidade que censura descaradamente todos os filmes, assistindo um por um e determinando quais cenas devem ser cortadas. Totó vai também contra a autoridade maior dentro do próprio cinema, o projecionista Alfredo, que tenta por todos os meios vetar seu acesso à sala de projeção. Por fim Alfredo rende-se à esperteza de Totó e assim começa uma forte amizade que dura longos anos.

Alfredo faz as vezes de mestre e grande mentor de Totó no que diz respeito aos seus conhecimentos e paixão pelo cinema, ao mesmo tempo em que os dois, em muitos momentos parecem espectadores, quando não diretores, do que bem poderia ser um filme: o dia-a-dia dentro do Cinema Paradiso. De seu ponto de vista privilegiado, Alfredo e Totó acompanham histórias que se passam na plateia, casais se apaixonando, pessoas enriquecendo, velhos turrões que jamais entrarão em acordo, o esquisitão que se realiza cuspindo de cima do balcão… personagens que por si só já renderiam bons filmes.

Salvatore cresce, e protagoniza intensamente seus momentos nos mais variados gêneros: vive e se desilude com seu primeiro grande amor, como num filme de romance; atua heroicamente salvando Alfredo de um incêndio, no melhor estilo de filme de ação; e também vive seu drama ao acompanhar as limitações de Alfredo depois do incêndio e quando segue o conselho do seu velho mestre indo embora sem nunca olhar para trás.

30 anos depois, já estabelecido como um importante cineasta em Roma, Salvatore resolve “olhar para trás” e voltar a Giancaldo, quando recebe um telefonema da mãe, contando que Alfredo faleceu. É quando se depara com todos os personagens de sua infância e com o Cinema Paradiso, tristemente abandonado. Alfredo deixa um pacote para Salvatore. E nessa sua última decisão de diretor, determinando quais cenas ainda deveriam ser incluídas no filme de sua vida, é como se Alfredo estivesse dizendo a Salvatore: “viu, não há do quê se arrepender…”

* Aline Schefler escreveu este texto. 
Programa distribuído durante exibição de “Cinema Paradiso”, no dia 10 de abril de 2012

Texto reproduzido do blog: hojetemcinema.wordpress.com

A Magia do Cinema


domingo, 28 de outubro de 2018

Eles sempre terão o cinema


Publicado originalmente no site Cinema Escrito, em 28.07.2013

Eles sempre terão o cinema

Cinéfilos que não medem esforços pelos seus amores

Por Luiz Joaquim 

“Em 1991 minha família passava dificuldade financeira. Eu mal tinha dinheiro para pagar o ônibus e ir ao colégio. Mas quando conseguíamos ir ao cinema era como entrar num outro mundo, eu fugia da minha realidade. Daí, saía encantado da sala e, como um fotógrafo que procura a melhor luz e enquadramento, eu olhava para a paisagem na rua e a enxergava como a cena de um filme imaginário dentro da minha cabeça. Era assim que eu esquecia as minhas necessidades”.

As lembranças são de Wlademir Moura, 37 anos, engenheiro e cinéfilo. Com as recordações da adolescência, ele tenta compreender a origem de uma paixão tão grande quanto insaciável pelo cinema. Seu encantamento representa o de milhões de abnegados pelo mundo que, pela menos uma fez, já se sacrificaram para o simples ato de ver um filme, e dessa prática fizeram nascer um misto de admiração, respeito e carinho.

Uma vez que a cinefilia (ainda) tem uma relação intrísica com o lugar onde se vive, o CinemaEscrito procurou identificar como seria o cinéfilo pernambucano de ontem, de hoje e do futuro. Para tanto, conversou com três gerações destes apaixonados: Jamysson Marques, 67 anos residente no bairro de Campo Grande ; Yuri Lins, 17 anos, que mora em Cabo de Santo Agostinho; e, claro, Wladermir Moura, da Iputinga.

Cinefilia – Nos anos 1950, o termo cinefilia começou a conquistar seu lugar na história cultural do século 20 ao inventar uma forma de ver e compreender o mundo através do cinema.

Wlademir Moura
37 anos, engenheiro

Se a memória é seletiva em acordo com as coisas que se ama, Wlademir é um exemplo perfeito. Ele lembra, por exemplo do que sentiu quando foi ao cinema pela primeira vez. “Era o filme -Popeye-, passava no Ritz ou Astor, e eu tinha uns seis anos. Uma coisa que achei estranha é que lá havia uma área para fumantes, e meu pai passou a sessão inteira ali. Ainda achei esquisito o fato de puder existir um filme com gente de verdade, que não fosse um desenho animado. Tive medo do escurto também”, diz.

Dessa fase recorda com carinho também dos filmes com Os Trapalhões, no Veneza, e da primeira vez que foi ao cinema sem os pais. O título escolhido foi “Os Caça-Fantasmas”, visto no Art Palácio. Em 1990, ele passaria por uma experiência inesquecível no São Luiz vendo “Esqueceram de Mim” – “Imagine 1300 pessoas rindo consecutivamente por quase duas horas!”, conta. A partir daí, o desejo de continuar com aquela alegria não parava e Wlademir passou a assistir a tudo que conseguia, e as idas aos cinemas no centro do Recife com os pais e irmã mais nova passaram a ser bastante esperadas.

Wlademir lembra especialmente de um domingo em que foram ver “Ghost”, no Veneza (rua do Hospício), mas a fila estava na avenida Conde da Boa Vista. “Desistimos e fomos ao São Luiz, mas -Dança com Lobos- estava lotado. O Moderno exibia -O Poderoso Chefão 3-, cuja censura era proibitiva para mim e para minha irmã; fomos ao Art Palácio e para -Tempo de Despertar- não havia ninguém na frente. Aí meu pai desconfiou que o filme não prestava. Voltamos todos pra casa, eu com uma revista Set e minha irmã com a Fama”.

Logo depois viria a fase mais difícil de sua família as idas ao cinema diminuíram. “Eu estudava no Ginário Pernambucano e quando acaba a aula, saía fazendo um tour pelos cinemas da cidade. Ficava conversando com os porteiros até que um dia eu perguntei se não podia entrar de graça. Qual foi minha surpresa quando consegui no Art Palácio para ver -Hudson Hawk-. Lá dentro, eu fiquei uns 30 minutos sem acreditar que tinha entrado. Resultou que vi três sessões seguidas”.

Como este amor de sua geração passa pelo carinho com as salas onde assistiu todos estes e outros filmes, Wlademir recorda de sua preocupação quando soube em 2006 que o São Luiz poderia fechar. “Certa vez eu lotei dois carros, um Fiesta e um Fusca. Eramos 16 pessoas, várias crianças, para ver -A Era do Gelo 2-. Eu não queria que o cinema fechasse e era a forma que eu tinha de colaborar, levando os amigos ao cinema, formando um público já habituado a ir para shopping”.

Dono de mais de 400 DVDs, Wlademir revela que não viu nem metade deles. “Eu os compro para ter perto os títulos do coração. Meu prazer é mesmo ir ao cinema e dou graças a Deus que ainda existam o Rosa e Silva, a Fundaj, e o São Luiz. À propósito, Geraldo Pinho [programador do São Luiz] faz milagres ao colocar quatro diferentes filmes em cartaz lá. A situação ali está muito precária. Até hoje aguardo a inauguração do projetor digital que o governo anunciou à imprensa na mesma época da Fundaj. Sobre o Apolo, vale ressaltar o esforço dos funcionários que o mantém funcionando. Sobre o Cineteatro do Parque então, melhor nem falar”, indigna-se.

Queixas à parte, o cinema lhe deu também a felicidade de conhecer Karyne Brito. “Há sete anos, fui assistir -O Senhor das Armas- no Shopping Boa Vista. Ela estava lá escolhendo o que ver. Assistimos a sessões juntos e depois veio o namoro”, conta. O resultado é que, em setembro próximo, Wlademir e Karyne consagram-se como marido e mulher.

— 5 filmes por Wlademir Moura
– Esqueceram de Mim, de Chris Columbus
– O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme
– Quatro Casamentos e Um Funeral, de Mike Newell
– Cidade de Deus, de Fernando Meirelles
– O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

— O programador Wlademir
Até os anos 1980, os grandes cinemas do Severiano Ribeiro no Recife tinham um perfil bem particular de programação. O cinéfilo Wlademir Moura costuma brincar e pensar os que eles exibiriam hoje.

“Meu Malvado Favorito 2”
Entraria em cartaz no Veneza. Era famoso por receber as produções infantis, como “E. T.: O Extraterrestre” e os filmes de Os Trapalhões. Quando lotado de crianças, parecia um parque de diversão.

“O Homem de Aço”
Exibiria no cine São Luiz. Era o espaço para lançar as superproduções de Hollywood. O próprio “Super-Homem: O Filme”, de 1978 com Chistopher Reeves, foi lançado ali.

“O Cavaleiro Solitário”
Por ser a sala “adulta” do Grupo no centro do Recife, estrearia no cine Moderno. Lá exibiam os filmes mais picantes, além de outros de aventura como “Indiana Jones”.

Jamysson Marques
67 anos, advogado aposentado

“Eu não acho que minha história seja importante” é assim que o advogado aposentado Jamysson Marques, começa a conversar com a reportagem. Desconfiado de que sua paixão pelo cinema não valesse a pena ser contada no jornal, preferiu inclusive nem ser fotografado. O sexagenário é mais uma prova viva de como a lembrança vincula-se ao que se ama. Mesmo após ter visto milhares de filmes – “só em casa tenho, por baixo, 3.000 títulos entre DVD e VHS -, o cinéfilo não esquece de sua primeira sessão num cinema.

“Fui levado pelo meu pai para ver -Um Conde em Sinuca-, com Bob Hope, no cine Eden, em Campo Grande. Naquela época [anos 1950], o bairro tinha também o cine Vera Cruz. Foram eles que alimentaram minha infância com filmes e desenhos animados. Ali vi também -Branca de Neve- e depois muitos filmes com Cantinflas e Oscarito”.

Na adolescência, veio o natural interesse pelos títulos de ação, em particular aqueles com o personagem italiano Maciste e suas aventuras de capa e espada; além de, claro, ter sido seduzido ao apelo de produções hollywoodianas. Entre elas “Os Canhões de Navarone”, “Ao Mestre com Carinho”, “Adivinhe quem Vem para o Jantar”, “Laranja Mecânica”, “Tubarão” e outros tantos.

Como qualquer cinéfilo, Jamysson foi acumulando ao longo da vida um impressionante acervo – que mantém até hoje – incluindo críticas de jornais, fotografias, livros e revistas que remotam os últimos 60 anos de história do cinema – como “Cinelândia” e “Filmelândia”. Nesta paixão, o cinema europeu tinha um lugar especial em seu coração. “Recordo que -Dio, Come Ti Amo!- levava tanta gente ao cine Trianon, que a gente o apelidou de -Dio, Come Fatura!-.

Entretanto, seu mais marcante encantamento nasceu na Espanha e atendia pelo nome de Sara Montiel (1928-2013). Fã, a ponto de possuir fotos exclusivas da atriz e cantora, Jamysson teve três encontros direto com a ídolo Sarita. “Em 1975, ela veio dar um show no Recife, no Geraldão. Antes concedera uma entrevista para Celso Marconi, Airton Cavalcanti e Fernando Spencer. Este último me perguntou se eu gostaria de ir também. Nem acreditei. Fui lá e fiquei quietinho só observando”.

“O segundo encontro foi por acaso em 1996, quando eu estava no aeroporto de Madrid. Voltava para o Brasil e a vi no saguão. Me aproximei sem jeito e perguntei se ela podia autografar um CD. Eu trazia comigo 42 CDs dela que acabara de comprar lá. Sarita tomou um susto e riu. O último encontro foi no Cine Ceará, que a homenageou em 2002. Ela cantou três músicas no cine São Luiz de Fortaleza. Eu queria lhe presentear com fotografias raras e acabei sendo recebido pela própria no apartamento onde ela estava hospedada”, conta sem esconder o entusiasmo.

Nos dias de hoje, Jamysson alimenta sua cinefilia indo apenas ao cine São Luiz e ao Cinema da Fundação. “Quando vou, sento na terceira fila pois aí não encontro gente fazendo piquenique nem mexendo no celular. Compro muitos DVDs para assistir em casa. Não gosto de shopping center, infelizmente as pessoas hoje são mal educadas e as sessões de cinema não são as mesmas”.

— O ator Jamysson
A proximidade com artistas e jornalistas levou Jamysson Marques a fazer figuração em alguns filmes. Os atentos o encontrarão em “O Cangaceiro”, a refilmagem feita por Anibal Massaíne Neto; em “Casa Grande & Senzala”, de Nelson Pereira dos Santos; e em “Bezerra de Menezes: O Diário de Um Espírito”, de Glauber Filho e Joe Pimentel.

— 5 filmes por Jamysson Marques
– Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti
– Quo Vadis, de Mervyn LeRoy
– Amarelo Manga, de Cláudio Assis
– Ondas do Destino, de Lars Von Trier
– Kolya: Uma Lição de Amor, de Jan Sverák

Yuri Lins
17 anos, estudante

O mais jovem cinéfilo do grupo, Yuri Lins, ainda nem prestou vestibular. Vai fazê-lo no final de 2013 para estudar cinema, mas já fala com a propriedade de um grande conhecedor de obras que foram feitas há mais de 40 anos antes dele nascer, como “A Palavra” (1955), de Carl Dreyer.

Quando pedimos para listar cinco filmes que marcaram sua vida, apenas um – “Gerry” (2002), de Gus van Sant – foi realizado quando Yuri já existia neste mundo. Seu conhecimento sobre filmes antigos, e raros no mercado brasileiro, diz muito sobre a cinefilia de sua geração. Uma paixão que nasceu primeiro em casa diante da tevê e do computador. “Um das minhas maiores experiências com filmes foi diante do computador”, revela. Só depois o fascínio cresceu em salas de cinema.

“Meu pai sempre gostou muito de cinema, e lembro de um momento marcante quando fomos à locadora e alugamos -Réquiem para Um Sonho-, -Laranja Mecânica-, -Magnólia-. Eu devia ter uns 12 anos e, enquanto víamos os filmes, meu pai fazia interrupções para perguntar o que eu achava, com o que concordava, ou não, e isso abriu muito a minha cabeça”, resgata.

A passagem da sala de estar para a sala de cinema aconteceu quando foi levado ao shopping para ver -Harry Potter e a Câmara Secreta- (2002). Herói que Yuri já conhecia dos livros. “Hoje acontece o contrário. Quando há um filme que sei que é preciso ver numa sala de cinema, como -A Árvore da Vida-, sou eu em quem arrasta meus pais para ir”, conta sorrindo.

“Os espaços que são meus pilares são o Cinema da Fundação e o São Luiz, mas não sou xiíta. Vejo todo tipo de filme. O problema nos multiplex é que não temos paz. São lugares onde me sinto desrespeitado. Quero conhecer o Cineteatro do Parque, mas nunca tive a chance de ver um filme lá”, lamenta.

Apesar da infinidade de possibilidades que a Internet oferece ao jovem, Yuri cultiva uma interesse especial pelo cinema brasileiro, e em particular pelo pernambucano. “Dois filmes que espero ansioso é -Tatuagem-, de Hilton Lacerda, e -Doce Amianto- , do pessoal do Ceará”, adianta

Para Yuri, mais do que a experiência de estar numa sala de cinema, ele percebe enriquecer sua cultura nos cineclubes. Frequentador assíduo do Cineclube Dissenso, ele próprio movimentou o município do Cabo criando o CineCínico. “Por meio destes encontros formei amigos e me forço a ver filmes que à princípio não escolheria. É bom porque, ao final da sessão, eu saio melhor dali. O cinema é como um espelho. O que ele te mostra te põe em xeque”, concluiu parafraseando Tarkovsky

— 5 filmes por Yuri Lins
– O Sacrifício, de Andrei Tarkovsky
– A Palavra, de Carl Dreyer
– As Harmonias de Werckmeister, de Béla Tarr
– Gerry, Gus van Sant
– Sem Sol, de Chris Marker

Texto e imagem reproduzidos do site: cinemaescrito.com