sábado, 9 de junho de 2018

Tradução para cinema: a evolução


Publicado originalmente no site LBM, em 25 de janeiro de 2018   

Tradução para cinema: a evolução

Por Ligia Sobral Fragano 

Caríssim@s leitor@s,

O primeiro guest post deste ano é mais do que especial. Depois de um bom tempo de espera, enfim recebemos em nosso blog a tradutora de cinema Marina Fragano Baird, vulga minha tia Marina, para um relato de coração sobre a tradução para cinema através das décadas.

Duas dicas bacanas que darei totalmente de graça para vocês. A primeira é: o texto a seguir discorre longamente sobre a moviola e pietagem. Então, se ainda não leram o post inaugural deste blog especial sobre a moviola, clique aqui e leia agora para entender melhor sobre a máquina e seu funcionamento. Ele foi repostado semana passada com nova introdução e arte. A segunda dica? Só aproveitem!

***

Olá, pessoal! Depois de meses ensaiando para escrever no blog do ratinho, aqui estou.

Pois é, a vida de tradutor de cinema é assim, corrida, cheia de imprevistos. Fica difícil se programar. E, mesmo tentando se programar, quando seu corpo e sua mente resolvem por você que é hora de parar, descansar, fazer aquela viagem revigorante, você corre o risco de deixar de fazer aquele filme que você tanto queria traduzir! Mas você volta renovada para novos desafios. Relaxada e com mais experiências e conhecimento para usar nas suas traduções.

Férias de tradutor de cinema?

É, acho que é uma profissão na qual as férias proporcionam um descanso necessário, claro, mas também reforçam o estoque de conhecimentos a serem aproveitados no seu ofício. Pelo menos, para mim, é assim desde a década de 70. Por mais complexo que fosse traduzir um filme no início, antes mesmo da existência da máquina de escrever elétrica, e marcar manualmente (que mais tarde começou a se chamar também “pietar”) na moviola a entrada e saída de cada legenda para o laboratório saber onde colocar cada uma delas, esse foi sempre um trabalho estimulante.

Sem contar que os roteiros não eram bem elaborados como nas últimas décadas, e era preciso “levantar” muitas palavras e frases na moviola (tarefa difícil, pois sendo ela manual, era difícil dar a velocidade precisa na fala), ou então “levantar” o que faltava na cabine onde o tradutor assistia ao filme. E, quando queríamos voltar atrás no filme para rever uma cena ou ouvir novamente um diálogo, era preciso pedir para o operador parar o filme, voltar atrás manualmente até um ponto que provavelmente seria o ideal, montar novamente e religar a máquina. E lá se iam muitos e muitos minutos, sem contar o risco de ter que ver mais uma vez!

Somado a isso, na época da ditadura, por exemplo, corríamos o risco de ter que marcar (pietar) o filme três ou quatro vezes, pois nossos austeros censores abominavam, por exemplo, o uso da palavra “droga” usada como tradução de “damn” ou “shit” (“merda” nem por sonho), pois podia remeter a “drogas” (“drugs”), e cortavam a cena inteira, o que obrigava a remarcar o rolo a partir daquele corte.

A tia Marina ainda tem a sua moviola, que está parada há cerca de 3 anos. É uma versão mais moderna e menos penosa de usar, otimizada para não sobrecarregar o braço do marcador.

“Calígula”, por exemplo, eu tive que marcar quatro vezes! A marcação, ou pietagem, consistia em anotar o número (que aparecia no marcador em pés da moviola) no início e no fim de cada legenda. Essa marcação servia também para o tradutor saber qual deveria ser o tamanho da legenda para que houvesse tempo de leitura da mesma.

Algumas décadas se passaram, passamos da máquina de escrever manual, à elétrica, e depois ao computador. Os filmes passaram há uns três ou quatro anos, a ser todos digitais. Os filmes que eram vistos em cabines, passaram a ser entregues ao tradutor em VHS (é só dar um Google para saber que bicho é esse!), depois DVD, blu-ray, pendrives. Hoje em dia, ou você recebe o link para baixar o filme, ou então você recebe um aviso de que determinado filme está disponível para você. E então, você já recebe a imagem, o template com as legendas na língua original e um template em branco para fazer a tradução, já indicando de que tamanho deve ser a legenda, que tende atualmente a ser mais curta. (Ou seja, um trabalhinho mental a mais, pois você tem que dar ideia do que está sendo dito com menos palavras!)


Só a tradutora oficial da Warner poderia dar essa letra, né, migues?

Os roteiros agora costumam estar completos e, por vezes, com explicação de determinadas palavras ou expressões. E a imensa quantidade de dicionários digitais e sites de pesquisa nos permitiu aposentar os vários dicionários, que iam sendo substituídos por novos, ou por terem se tornado obsoletos ou por já terem perdido várias folhas por excesso de uso. Para nos adaptarmos às novas tecnologias, de vez em quando temos que fazer alguns treinamentos. Às vezes, confesso, dá preguiça de ter que aprender algo novo, mas depois de dominada a nova técnica, a sensação é de satisfação, e normalmente o trabalho torna-se um pouco mais ágil.

Foram tantas e tantas mudanças através das décadas, mas o que não muda é o aprendizado a cada filme traduzido. Não só em termos de aprender novos vocábulos e expressões, mas de viver diferentes experiências com cada personagem, formar opiniões a respeito de determinados fatos e descobrir suas opiniões com relação a certos temas, antes desconhecidas até por você. E conseguir transmitir para os espectadores a ideia de cada frase, já que geralmente não existe um tempo de leitura suficiente para traduzir tudo que é dito, dá uma sensação de missão cumprida.

Inventar trocadilhos onde a tradução literal tiraria a graça de determinada legenda é outro desafio. E algumas traduções de termos ou expressões que fizemos e não nos satisfizeram nos perseguem no banho, na refeição, no supermercado, até que encontremos uma que nos convença.  Além das pesquisas habituais, às vezes temos que ler livros nos quais certos filmes se baseiam, para que sejam mantidos os nomes dos personagens, locais, determinadas expressões características, etc. Foi assim, por exemplo, com os oito filmes “Harry Potter”. Para traduzi-los, li os sete livros, mantendo assim os nomes dos personagens, das casas, dos feitiços, dos lugares, etc., para não frustrar os fãs, muitos dos quais sabiam cada nome contido no livro de cor. O mesmo aconteceu com outras franquias como “O Senhor dos Anéis”, “O Hobbit”, e os filmes de super-heróis: “Batman”, “Mulher-Maravilha”, “Esquadrão Suicida”, “Liga da Justiça”, entre tantos outros. Os fãs dos quadrinhos não perdoam um mínimo deslize! Assim como os das franquias para adolescentes, como “Divergente”, “Crepúsculo”, etc., além de filmes baseados em livros famosos, como “O Pequeno Príncipe”, “A Cabana”, “O Nome da Rosa”.

Estamos fazendo uma vaquinha virtual para comprar um novo apê onde a tia Marina possa colocar sua lista de filmes traduzidos, que já não cabe mais em seu apartamento.

E assim, depois de mais de 1.500 filmes traduzidos, continuam iguais o entusiasmo pela profissão, pelo aprendizado a cada filme, a sensação de satisfação ao final de cada trabalho concluído, principalmente os que requerem maior esforço, e a alegria ao ver reconhecido o valor do próprio trabalho.

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Marina Fragano Baird formou-se em Letras na USP e começou a traduzir para cinema aos 18 anos. Com mais de 40 anos de carreira, tem uma lista invejável de mais de 1500 filmes traduzidos. Viajou boa parte do mundo atrás de renovação mental, espiritual, corporal e, sobretudo, cultural para seguir traduzindo. Pioneira na pietagem de filmes 35 mm, aprendeu sobre marcação na antiga Labocine do Rio de Janeiro e seguiu marcando filmes até que todos os cinemas brasileiros estivessem digitalizados. Uma referência na tradução para cinema, com qualidade que estabeleceu padrões no mercado, e ícone para fãs brasileiros das maiores franquias culturais do planeta.

Texto e imagem reproduzidos do site: littlebrownmouse.com.br

quinta-feira, 7 de junho de 2018

O Drama da Projeção


Texto publicado originalmente no site Críticos, em 20.02.2013

O Drama da Projeção 

Por Maria Silvia Camargo

Um relato pessoal do suplício que tem sido ir ao cinema no Rio de Janeiro, por conta de problemas na exibição.

Trata-se de um fim de festa. Em 31 de janeiro deste ano o Minc anunciou que os cinemas administrados por empresas brasileiras finalmente entrariam no século XXI e serão todos digitalizados. Ufa. Realmente: as cabines de projeção continuam no século passado, para prejuízo do espectador. Mas não se trata só de trocar de equipamento. Se os exibidores nacionais querem continuar competitivos será preciso muito investimento.

Sou fiel a uma sala de cinema. Tenho tudo: DVD, blue-ray, ar condicionado e tudo o mais. Mas aquela sala escura, o encontro no saguão antes de entrarmos... é diferente. Cresci assim e frequento o cinema pouco mais que a média da maioria dos moradores da ZS do Rio, onde vivo. Procuro ir uma vez por semana (ou a cada 10 dias) desde 1978. Façam os cálculos. Óbvio que sofre-se muito. A cada três filmes encontro uma projeção ruim, uma média e uma boa. Nem reclamo quando a exibição é mais ou menos, o olho já acostumou. Mas me dou ao trabalho de levantar falar com o gerente ou o projecionista quando ele erra a janela e o microfone vaza ou o filme pára ou fica sem som muito tempo.

Também, por ser jornalista, tenho um pouco mais de informação sobre o que se passa no setor. Sei que projetar filmes é uma profissão que se aprende na prática e paga mal; sei que a cada Festival os projecionistas têm que se virar com máquinas alugadas de todos os tipos de tecnologia; entendo um pouco a equação preço do ingresso X aluguel de salas etc. etc. mas se o Minc vai investir em digital, que se criem recursos para que o exibidor pague melhor o projecionista e o treine. Invista em gente que possa receber aí filmes com captação de som direto; digitais; assim como também em 35mm. Não entendo de tecnologia, só sei pedir, como espectadora: preparem-se para o futuro. A captação de filmes está mudando, é feita de várias formas, então a mentalidade de quem tem sala de cinema têm que mudar também. Se o cinema vai conviver com todas as outras mídias – e eu sei que vai – é preciso que ele se renove.

Aqui no Rio de Janeiro, para quem mora na Zona Sul e não quer ir longe para assistir a um filme, a coisa está difícil. Fiz um pequeno diário este verão das sessões que fui ou a que amigos foram. Vale notar que não frequentei só cadeias de empresários nacionais.

Quarta, 16 de janeiro. Argo , na sala 3 do Estação Rio 3. A projeção parou duas vezes pois não havia som. Quando ele entrava, estava baixo.

Quinta, 17 de janeiro. O Som ao Redor. Não lembro a sala, Unibanco Arteplex. Projeção boa.

Sexta, 18 de janeiro. Amor, sala 2 do Estação Sesc Ipanema. Projeção boa.

Domingo, 3 de fevereiro. Os Miseráveis, sala 6 do Unibanco Arteplex. Cinema lotadíssimo, filme recém estreado.  Projeção com manchas lilases na tela e som chiado.

Quarta, 6 de fevereiro. O Lado Bom da Vida, sala 2 do Cinépolis Lagoon. Filme super escuro! Falamos com o projecionista, ele se desculpou pois o projetor estava com uma luz queimada. E assim ficou.

Sábado, 16 de fevereiro. As Sessões. Sala 3 do Vivo Gávea. Som ruim. O som desta sala é sempre sofrível ao contrário da sala 5 do mesmo cinema, que é bem melhor. Vai saber.

Sábado, 16 de fevereiro. Nota de Rodapé. Sala 3 do Estação Rio 3. Projeção com pulos de imagem...

Texto reproduzido do site: criticos.com.br

Em Atenas, vive o último pintor de cartazes de cinema



Publicado originalmente no site Gazeta do Povo, em 16/03/2014

Em Atenas, vive o último pintor de cartazes de cinema

Por Liz Alderman   

Vasilis Dimitriou pinta cartazes para o teatro Athinaion, em Atenas, há mais de 40 anos

O rosto de Leonardo DiCaprio brilhava, triunfal, de um grande outdoor no alto do velho cinema Athinaion, onde “O Lobo de Wall Street” estava em cartaz. Vasilis Dimitriou tinha pintado o ator em tamanho maior que o natural.

A aparência do outdoor era de pôster de cinema à moda antiga, imbuindo DiCaprio de um glamour que lembrava o de Humphrey Bogart, anos atrás.

Dimitriou tem 78 anos e nunca conheceu pessoalmente um astro ou estrela de Hollywood, mas já pintou milhares. Quase todas as semanas desde que completou 15 anos, ele vem pintando nomes lendários da tela grande em cenas oníricas de amor, ódio, orgulho ou tentação —muitas vezes com habilidade, às vezes não, mas sempre com muita verve.

Hoje ele é o derradeiro pintor de pôsteres de cinema na Grécia e faz parte de apenas um punhado que ainda restam na Europa. Quando o cinema mudo começou a fazer sucesso, na década de 1920, os estúdios de Hollywood contrataram artistas gráficos para transmitir o glamour e a emoção dos novos lançamentos. Mas, numa era de impressão em massa, a prática praticamente desapareceu.

“A pintura está sempre presente em minha cabeça”, disse Dimitriou em seu ateliê. “Quando termino um pôster e o exponho no cinema, é emocionante saber que as pessoas o verão e sentirão um pouco da magia.”

Sua mão esquerda está enrijecida pelo mal de Parkinson —para os médicos, é fruto de um breve período passado na juventude como boxeador. Ele já não tem a mesma facilidade de antes para subir as escadas para pintar no alto. Mas Dimitriou não se deixa desanimar.

Os atenienses de todas as idades conhecem seu trabalho. George Athanasopoulous, 50, diz que há algo de estilizado e nostálgico nos cartazes pintados e se recorda de ficar fascinado por eles quando era criança. Hoje em dia, ele explicou, “existe uma mesmice em tudo. Mas o que ele [Dimitriou] faz é muito especial.”

A programação diária de Dimitriou é cansativa. Cada pôster leva de três a quatro dias para ser concluído, e ele pinta um a dois por semana para o Athinaion, cinema para o qual trabalha há mais de 40 anos e que é o último de Atenas a rejeitar os pôsteres fotográficos.


Trajando blusa preta e boina de lã, ele andava de um lado a outro em seu pequeno espaço de trabalho, uma construção de gesso com uma parede feita nas dimensões exatas dos outdoors do Athinaion.

Um álbum de recortes estava repleto de fotos de seus trabalhos. “O Exorcista”, pintado em “chiaroscuro” sinistro, com sangue escorrendo pelas letras gregas do título. “Lolita”, com Dominique Swain pré-púbere deitada sobre a grama em um vestido molhado, com o dedão do pé apontado para o alto. “Ali”, com o rosto de Will Smith pugilista tenso como o de um touro.

Dimitriou cresceu pobre em Kypseli, subúrbio de Atenas. Durante a Segunda Guerra Mundial, seu pai com frequência estava ausente, combatendo na resistência grega contra o Exército nazista. Para passar o tempo, o jovem Dimitriou começou a desenhar, e então a paixão pela arte tomou conta dele. Sem dinheiro para comprar lápis ou papel, ele roubava giz e fazia desenhos nas calçadas.

Então a guerra atropelou seus sonhos. Dimitriou se refugiou nos desenhos. Sem um tostão no bolso, ele e seus amigos subiam em árvores ao lado de um cinema ao ar livre para assistir de longe aos lançamentos mais recentes. Uma noite o gerente do cinema os perseguiu, e Dimitriou se escondeu no próprio cinema, onde o projecionista sugeriu que ele se oferecesse para trabalhar de graça, em troca da permissão para assistir aos filmes.

O gerente não demorou a observar o talento de Dimitriou para o desenho e pediu que ele tentasse pintar cartazes de cinema. “Eu interpretava as cenas à minha própria maneira”, recordou. Com o tempo, dez cinemas acabaram por encomendar seus trabalhos.

Para Dimitriou, aquela foi a era de ouro do cinema. “Naquela época as pessoas iam ao cinema de terno e gravata. As mulheres usavam vestidos belos. Havia um intervalo, e metade do público ia ao foyer para tomar um drinque e comentar o filme. Hoje não há mais nada disso.”

No mês passado, Dimitriou prendeu uma tela à parede de seu ateliê e desenhou uma montagem para “Um Conto do Destino”, com Jessica Brown Findlay. Para produzir tintas que não se desmanchassem sob a chuva, ferveu cola num fogão improvisado e acrescentou pigmentos em pó: amarelo cromo, vermelho, azul e turquesa.

Ele trabalhou silenciosa e metodicamente, subindo uma escada e se apoiando em banquinhos baixos enquanto percorria a tela. Quando ela ficou pronta, Dimitriou foi até o Athinaion de carro com seu genro para prender o pôster na marquise. Um homem se aproximou e o abraçou, dizendo “sou fã do senhor”.

Mais tarde, de volta ao ateliê, Dimitriou soltou um suspiro. O reconhecimento é gratificante. Mas, disse ele, “não é bom saber que esta arte está morrendo.”

Texto e imagens reproduzidos do site: gazetadopovo.com.br

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Bastidores de um cinema...

Gian Cornachini (Foto de Pollyana Lopes)

Bastidores de um cinema: em meio a amadorismos e uma montanha de “primeiros”

Por Gian Cornachini *
Colaboraram Mariana Ribeiro e Samara Costa**

Era para ser uma cobertura típica de um lançamento cinematográfico. “Django Livre”, do diretor Quentin Tarantino, foi o filme escolhido pelo professor Flaviano Quaresma, da disciplina de Fotojornalismo, para a primeira atividade de cobertura jornalística do Laboratório de Fotografia. Mas “primeiro”, também, foi meu dia como monitor da disciplina de Introdução à Fotografia e, como o curso de Jornalismo da UFRRJ é novo, logo, sou o primeiro (de novo) monitor de fotografia do curso. Afinal, de que importa essa repetição de “primeiros”? Bom, na prática, não serve para nada. Agora, à título de curiosidade, fica registrado o primeiro monitor de Introdução à Fotografia, em seu primeiro dia de tutoria, na primeira atividade extra-campus do Laboratório de Fotografia. Pensando bem… será que, na prática, não serve pra nada mesmo?

Era para ser uma cobertura típica de um lançamento cinematográfico. Repeti só para vocês lembrarem como, de fato, o que importa começou agora. O professor Flaviano Quaresma, professor substituto de Introdução à Fotografia e Fotojornalismo (pois é, ainda não teve concurso público para essa área — libera a vaga aí, Dilma!), tem lá seus contatos com o mundo da moda, do cinema, das artes. Foi na sexta-feira (18) que ele entrou em contato comigo e mais três alunos, repentinamente, para cobrir a estreia do filme Django Livre. A rede de cinemas Cinesystem concedeu quatro ingressos para que estudantes de Jornalismo da Rural assistissem ao filme no Shopping Via Brasil, em Irajá, e fizessem qualquer atividade jornalística no local. Os alunos escolhidos foram eu — afinal, minha primeira tutoria como monitor precisava acontecer —, Samara Costa e Phelype Gonçalves, estudantes do 4º período, e Mariana Ribeiro, do 2º período. Ficou decidido que assistiríamos ao filme no sábado, pois temos aula na sexta-feira à noite.

Agora, aqui, no sábado (19), dia da atividade, entra a minha pergunta: será que, na prática, aquela montanha de “primeiros” não serve para nada mesmo? Serve. Sabe para quê? Para atrapalhar todo o processo de uma cobertura jornalística bem feita. Mas não vou explicar isso agora. Vocês vão entendendo no desenrolar da história…

Já no cinema Cinesystem do Shopping Via Brasil, a gerente Aline Ambe recebeu a mim, Samara e Mariana da forma tão simpática quanto esperávamos. Até pipoca e refrigerante ganhamos (não dá para ir ao cinema e não comer pipoca, né?). Perdeu o Phelype Gonçalves que, por ironia do destino, precisou cancelar sua contribuição na atividade.

Nossas idas e vindas foram autorizadas para explorar o cinema todo, e, inclusive, fomos convidados a conhecer a cabine de projeção. Meu coração quase saiu pela boca quando a gerente sugeriu essa visita. Mas precisávamos cumprir o que nos propusemos a fazer anteriormente: cobrir a sessão do filme Django Livre.

“Ah, não. Deixa quieto.”

Faltando 10 minutos para começar o filme, paramos na porta da Sala 1 do cinema e abordamos o pessoal que estava entrando.

— Olá, boa noite. Meu nome é Gian, essa é a Mariana e essa é a Samara. Somos alunos de Jornalismo da Universidade Rural e estamos cobrindo a estreia do filme Django em parceria com a rede Cinesystem de cinemas. Poderíamos fazer uma breve entrevista com vocês?

O casal abordado aceitou. Depois das perguntas, a foto.

— Para publicarmos a foto, precisamos que vocês assinem o termo de uso de imagem. Isso evita qualquer problema para mim e para vocês.

Os olhos deles se arregalaram e a resposta foi clara:

— Ah, não. Deixa quieto.

O rapaz pegou na mão da mulher que o acompanhava e, numa virada de costas, nos abandonou.

Aline Ambe, gerente do CineSystem do Shopping Via Brasil,
averígua a exibição de um filme ao lado de um projetor
Foto de Gian Cornachini

Minha Nossa Senhora dos Focas, o que fazer para que esse povo aceite ser fotografado? Não sabia. Afinal, sou o primeiro monitor de fotografia em minha primeira atividade extra-campus. Eu estava ali coordenando a atividade e, ao mesmo tempo, me sentindo impotente. Uma aura de amadorismo me cobria. Não tinha jeito senão arriscar e fotografar sem a autorização. A matéria é positiva, não é para denegrir a imagem de ninguém. Decidi que, se quiséssemos sair com fotos de entrevistados, precisávamos fotografar sem permissão e, depois, perguntar se eles queriam assinar o termo de uso de imagem. E não é que deu certo? Eu até brinquei com um dos entrevistados:

— Olha só, você não quer assinar o termo. Mas vê se não vai me processar depois, tá bom? (risos)

— Magina (risos), claro que não. Eu até quero essas fotos depois. Tem como me passar por e-mail? Ficaram boas.

Sei que ainda há um risco. Mas, fazer o quê? Tenho que corrê-lo. As fotos dos entrevistados serão usadas em um contexto positivo. Então, não há do que se queixar. Eles até posaram com o cartaz do filme e fizeram jóinha!

Assistir filme todo dia, que agonia!

Eu ainda não tinha tirado da minha cabeça o convite que a gerente Aline havia feito. Queria conhecer a cabine de projeção e já havia decidido que faria uma matéria sobre isso e a publicaria em algum lugar — e cá estou eu, escrevendo para vocês.

— Aline, gostaríamos de conhecer a cabine de projeção agora — disse eu, com um olhar de piedade.

— Claro, vamos lá! — respondeu ela na mesma simpatia.

E a trupe subiu uma escada, depois outra e, depois, entrou em um corredor comprido. Esse corredor tinha uma iluminação fraca e era refrigerado. Nas paredes, janelas quadradas que não eram abertas. Na frente dessas janelas, máquinas grandes, mais parecidas com copiadoras de última geração, projetavam uma luz que ultrapassava essas mesmas janelas. E lá estavam os projetores do cinema. Mas onde estavam os rolos dos filmes? No passado.

— É tudo digital. — explicou Aline — Quem entra aqui pela primeira vez perde o encanto. Os filmes, agora, não são mais em película. Eles chegam em HDs e tudo é controlado por computador.

Ok. Não há como negar que ficamos um pouco frustrados, pois queríamos ver o filme rodando em projetores clássicos. Imaginem só ver 24 quadradinhos de uma película gigantesca passando por apenas um segundo no projetor … Mas isso foi substituído por máquinas controladas por computadores e supervisionadas por seres mortais. Então, cabia a nós descobrirmos como funciona essa nova tecnologia.

Em um longo bate-papo, a gerente Aline e os operadores cinematográficos Ronaldo Mendonça e Leonardo Balthazar explicaram para nós como é a rotina de um cinema totalmente digital. A distribuidora de filmes repassa os HDs com dois dias de antecedência para o cinema. O tempo é suficiente para ser assistido com a intenção de verificar se há erros no HD. E quem faz essa análise são os operadores cinematográficos. O ponto positivo para eles é que, enquanto estamos em casa roendo as unhas de ansiedade para assistir à estreia tão aguardada, os caras já viram primeiro:

Os operadores cinematograficos, Leonardo e Ronaldo,
e a gerente Aline, verificam o andamento dos filmes
Foto de Gian Cornachini

— Se for um filme que a gente quer ver, nossa, é demais! Assisti Os Vingadores desde a revisão até sair de cartaz. Essa profissão é muito boa! — contou Ronaldo, com um sorriso enorme no rosto.

Tudo bem que ele disse que é sensacional assistir antes de todo mundo, mas e se o filme for um daqueles chatos que não dá para ver duas vezes?

— Aí eu só volto no projetor para ver se está tudo certo, se a legenda não sumiu ou se o som não está baixo. Deixo o computador fazendo o restante sozinho…

É. O Ronaldo conseguiu se safar dessa, mas não totalmente. Toda semana, ele e Leonardo precisam revisar os filmes para ver se está tudo certo com eles:

— A gente chega cedo e assiste todos os filmes. Essa é a parte chata. Mas temos que assistir, né! — explicou Leonardo.

E nas férias, heim? Será que dá vontade de ir ao cinema? Ronaldo nem esperou eu terminar a pergunta e já foi logo respondendo:

— Não quero nem passar perto! Só que a namorada quer, aí sou obrigado a vir. Até cortesia ela pede… vê se posso! — revelou o operador. Todos riram, até Aline. Falando na gerente, fiz a mesma pergunta à ela.

— Comigo é diferente. Quando venho ao cinema com minha filha, ela logo diz: “mamãe, tem gente fazendo barulho ali. Pede para eles ficarem quietos!”. Olho para um lado, olho para o outro e não vejo nenhum funcionário para que eu possa reclamar e pedir que ele chame a atenção do barulhento. Logo penso: ah, deixa que, quando eu voltar, vou puxar a orelha deles! — respondeu a gerente, dando uma gargalhada logo após. O ar descontraído enchia nossos pulmões e a hora de ir embora batia às nossas portas.

Epílogo

Era para ser uma cobertura típica de um lançamento cinematográfico. Mas não foi só isso. Foi mais, foi muito mais. Foi a primeira atividade do Laboratório de Fotografia, no primeiro dia de trabalho do primeiro monitor da disciplina de Introdução à Fotografia. E aquela pergunta que eu havia feito lá no começo? Essa montanha de “primeiros” serve para alguma coisa? Como rapidamente respondido, serve para atrapalhar. Eu poderia ter vindo com muitas outras curiosidades do cinema para vocês, muitas outras fotos. Mas foi só quando cheguei em minha casa que lembrei de outras perguntas interessantes que eu poderia ter feito. Isso se chama amadorismo, aquilo que acontece, principalmente, nas primeiras vezes. Serve para destruir nosso humor na hora de ver as fotos no computador e perceber que a lente escolhida para a câmera não foi a mais apropriada, pois de dezenas de fotos, poucas se salvaram com foco. Entretanto, serve, também, para lembrar que estou na condição de estudante, e isso é mais do que natural no processo de amadurecimento acadêmico e profissional. Serve para deixar claro que a montanha de “primeiros” é uma desgraça, mas também é uma benção.

Ainda tenho uma carta na manga e deixo, logo abaixo, mais informações sobre os bastidores de um cinema digital. É tudo o que me restou de informação. Amadorismo, o maldito do amadorismo! Mas tudo bem. Com o tempo a gente aprende…
Um pouco mais sobre os bastidores do cinema:

— O filme de maior bilheteria no CineSystem do Shopping Via Brasil foi Amanhecer – Parte 1;

— O filme que ficou mais tempo em cartaz no CineSystem foi Alvin e os Esquilos 3, fazendo a alegria das crianças por quatro meses;

— São exibidas, diariamente, 30 sessões de filmes;

— A temporalidade do filme em cartaz varia de acordo com o movimento, que estipula a arrecadação. Toda sexta-feira tem uma estreia, e alguns filmes podem durar apenas uma semana em cartaz enquanto outros mais de meses;

Um computador central controla todos
os projetores e a exibição dos filmes
Foto de Gian Cornachini

— A mesma distribuidora que faz a entrega dos filmes, busca os HDs. A validade deles é de uma semana, pois todos têm uma chave específica que funciona apenas em um projetor. Se o filme tiver uma boa receptividade e durar mais de uma semana em cartaz, a distribuidora manda uma outra chave para liberar a exibição;

— O trabalho dos operadores cinematográficos não fica preso à cabine de projeção. Eles precisam circular nas salas de exibição para verificar algum possível erro que não tenham identificado pela cabine de projeção, como o volume do filme, o foco da imagem e, inclusive, a temperatura do climatizador;

— Todos os dias acontecem problemas nas exibições dos filmes. As máquinas são imprevisíveis e, de repente, pode sumir a legenda do filme. Em média, são identificados três erros diariamente. O mais comum é a lâmpada do projetor falhar: ela tem um tempo de vida e, quando está chegando ao fim, começa a se apagar;

— Quando um erro acontece, é possível retornar o filme (para a alegria de uns e desespero de outros). Os projetores digitais permitem um fácil acesso à linha do tempo e, por isso, o trabalho de voltar o filme é menor, já que o arquivo é digital. Com projetores de película, seria necessário desmontar todo o equipamento para rebobinar o filme.

* Gian Cornachini é aluno do sexto período do curso de Jornalismo.
Mariana Ribeiro e Samara Costa são, respectivamente, alunas do segundo e quarto períodos do mesmo curso.

Texto e imagens reproduzidos do blogs.ufrrj.br/bloghumanidade

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Louco pelo cinema, fã vai de pôsteres a películas em sua coleção

Raffaele Petrini exibe sua coleção ao Imirante.com.

Publicado originalmente no site Imirante, em 13/02/2016

Louco pelo cinema, fã vai de pôsteres a películas em sua coleção

No total, Raffaele Petrini conta com mais de 25 anos como colecionador.

Gustavo Sampaio/Na Mira

SÃO LUÍS – À primeira vista, um apartamento pareceria ser um cenário comum. Sendo de um cinéfilo, a situação muda. Os sofás, as paredes, decorações e tudo mais ao redor deixam de ser comuns até que a primeira viagem se inicie: ir de Francis Ford Coppola a Christopher Nolan dura menos que qualquer trailer, mas vale a melhor das pipocas. Italiano, que mora em São Luís há dez anos, Raffaele Petrini reúne em duas residências distintas uma coleção de milhares artigos relacionados ao mundo da sétima arte. E sem previsão de desfecho.

“A primeira lembrança que eu tenho na vida é dentro de uma sala de cinema”, comenta Petrini ao relembrar o feixe de luz que marcou a sessão de Cinderela, aos quatro anos. A segunda mais marcante viria na mesma época, com o primeiro VHS: Dumbo, clássico da Disney. A partir daí, a “fome” por cinema apareceu – e nunca mais saiu. “Tudo começou com as fitas da Disney. Eu era uma criança com zelo em guardar tudo juntinho, em ordem (...). [Eu] Não era aquele menino que guardava dinheiro para comprar roupa. Passei toda a minha adolescência comprando DVD. Eu deixava de ir pra show e festa para comprar DVD. Era doente”, brinca.

Minha preocupação quando criança não era jogar bola, era ver o novo filme do DeNiroRaffaele Petrini

Outra coleção iniciada nos tempos de infância foi a de revistas de cinema – fruto do presente de uma tia. Com a leitura, a “doença” começava. “Virou minha obsessão. (...) Em 1998,eu comprei meu primeiro DVD, em dezembro”, lembra Petrini ao referir-se ao longa A Lenda do Pianista do Mar, de Giuseppe Tornatore. Atualmente, boa parte das coleções alterna-se entre dois pontos afastados do mundo: um em São Luís, outro (o maior) na Sardenha, na Itália.

LPs clássicos fazem parte da coleção, como as trilhas de Dick Tracy 
e a do famoso "Filme do Pelé".

Das páginas às faixas, o interesse demonstrou, com o tempo, outra obsessão: as trilhas de cinema. A primeira delas, inclusive, foi em São Luís, após uma compra no bairro do João Paulo, em 2000. “Fui ao João Paulo, e lá tinha um senhor que vendia discos na rua, o ‘Seu Adriano’. Ele vendia na rua e vendia vinil por R$ 1. A maioria de cinema ele vendia por menos de R$ 1 porque ninguém comprava. As pessoas só compravam os mais famosos, como LPs do Roberto Carlos. Comprei, R$ 0,50, o vinil de Ultimo Tango em Paris”, comentou Petrini. Na época, voltando para a Itália, ele iniciou a coleção de vinis.

Atualmente, a cena que inspirou uma coleção há mais de 15 anos virou motivo de “festa”. “No bar Chico discos, atualmente, eu toco uma vez por mês as trilhas de cinema embalando a noite no bar. (...) Compro os vinis sem pensar na discotecagem”, brincou.

Cartaz da segunda edição do projeto Cinema Analógico, 
realizado em dezembro do ano passado, em São Luís.

Das centenas de itens colecionados, Petrini garante que nada foi comprado em vão – mesmo que algumas compras sejam justificadas por um cineasta ou ator em suas melhores fases. “Eu compro os filmes que eu gosto de ver. Por exemplo, há dois meses, eu estava com um amigo em uma locadora que estava fechando e vendendo tudo. Levamos 100 filmes cada, aproximadamente. Comprei alguns filmes aleatórios, devido a uma atriz ou a um diretor (...) O objetivo mesmo é comprar a melhor edição de um filme que está disponível”, comentou.

Números impressionam - são mais de 2.000 títulos de DVDs e Blu-Rays.

De suas coleções, Raffaele Petrini revela que alguns diretores famosos a coleção já foi completada com êxito, como Quentin Tarantino e Stanley Kubrick. Outros, porém, vai além da paixão – e é barrada na disponibilidade. “Woody Allen eu quero ter tudo. É difícil, são muitos e poucos dão para encontrar. [Martin] Scorcese eu gostaria de ter tudo também”.

Como um romance dos mais açucarados, Petrini já foi longe pelo amor aos filmes. Pelo cinema, ele realizou viagens, exclusivamente, para aumentar a sua coleção. Em São Paulo, por exemplo, foi, simplesmente, para ampliar a coleção de vinis. Ainda que não ache exagero, o cinéfilo afirma que existem apaixonados pela sétima arte em um “estágio mais grave” que o dele. “Muitos filmes e discos que eu tenho eu comprei de pessoas que casaram e estavam se desfazendo”, comentou. Questionado se um casamento o faria cometer a mesma decisão, ele foi enfático: “Eu sempre tive sorte neste sentido”, brincou.

Artigos de cinema dominam estantes, paredes e decorações 
do apartamento de Raffaele Petrini.

Números

No total, Raffaele Petrini conta com mais de 25 anos como colecionador. Ao todo, são mais de 500 cartazes de filmes – a maioria foi adquirida na Sardenha. Entre DVDs e Blu-Rays, ultrapassam a marca de 2.000. Já os VHS vão além de 700 títulos – alguns, para ele, são lendários, como a coleção da Disney, que traz versões históricas de Fantasia, por exemplo. Vinis superam 1.000 artigos – de cinema, ao menos 300 são de trilhas sonoras, em destaque para a trilha não utilizada por Stanley Kubrick para Laranja Mecânica, feita por Walter Carlos - isto sem contar outros artigos, como películas e trilhas de novela.

Por que colecionar?

O alto número de artigos colecionados não impressiona Raffaele Petrini ao ponto dele enxergar um limite para a coleção. Para ele, o ato de colecionar é inexplicável e único. “Não é um acúmulo de coisas. O colecionismo não é um acúmulo, mas juntar coisas das quais temos interesse. (...)Tu faz um pedido de um box, e quando chega, é um dia de emoção inteira”, comentou. Ele ressalta, ainda, que é mal compreendido entre alguns amigos, mas que não se incomoda. “Tem gente que acha uma besteira. ‘Tem no Netflix’ é o que eu ouço. Eu também tenho [risadas]. É impossível explicar”, acrescenta.

Texto e imagens reproduzidos do site: imirante.com