domingo, 18 de agosto de 2019

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Artista que pintava cartazes para os cinemas cariocas...

A. Silveira levava até um mês para criar painéis como o do Odeon 
Foto: Guillermo Giansanti / Agência O Globo

Publicado originalmente no site do jornal O GLOBO, em 18 de agosto de 2013

Artista que pintava cartazes para os cinemas cariocas tem vida relembrada em curta

Conheça Antonio Henrique Silveira, que pintava paineis de cinemas como Pathé, Odeon, Palácio, Roxy e Tijuca Palace

Por Cláudia Amorim

RIO — Antonio Henrique Silveira pintou de Ben-Hur ao gorilão King Kong; de “A noviça rebelde” a Bond, James Bond. Isso quando, em tempos mais românticos de Hollywood, os cartazes acompanhavam a grandiosidade cinematográfica. Era uma época em que Liz Taylor, Rex Harrison e Richard Burton estampavam painéis monumentais nas fachadas dos tradicionais cinemas cariocas que exibiam “Cleópatra” (1963). E Clark Gable mostrava, com as mãos em Vivien Leigh, que tinha pegada, comprovada em cartazes de seis metros de largura que anunciavam “...E o vento levou” (1939). Parte dessa história virou filme. E vai ser contada em 18 minutos no curta “Em cartaz”, de Fernanda Teixeira.

Rian, Pathé, Odeon, Palácio, Olinda, Azteca, América, Roxy, Art-Palácio, Coral, Scala, Tijuca Palace, muitos foram os cinemas — em grande parte, extintos — que, desde os anos 50, ostentaram os painéis pintados por Antonio Henrique Silveira, hoje com 86 anos. (Filmes como “...E o vento levou” eram reexibidos anos depois de lançados).

— Cheguei até ele por intermédio do meu tio, Sandro Donatello, que é pintor, e resolvi filmar essa história — conta Fernanda, que já exibiu um filme seu no festival de Cannes, “A espera” (2008).

Atualmente, A. Silveira (como o protagonista do filme assina) pinta, em sua sala na garagem subterrânea do Shopping dos Antiquários, em Copacabana, trabalhos como paisagens e naturezas-mortas, que são vendidas em leilões e lojas de quadros decorativos. Mas volta e meia também reproduz um Charles Chaplin aqui, uma Marilyn Monroe ali...

— Faço isso para recordar — explica o pintor, que tem na cabeça as exatas feições de Charles Bronson. — Sei de cor, de tanto que fiz cartaz de filme com ele.

As curvas da Dama do Lotação e da Dona Flor de Sônia Braga e os traços de “O cangaceiro” também passaram por seu pincel. Em mais de 40 anos dedicados ao ofício, A. Silveira experimentou os detalhes mais curiosos do trabalho artesanal.

— Antes, não havia projetor, eu dividia a foto em quadrados e reproduzia em escala maior, tudo à mão. Depois, comprei um, para usar a imagem projetada. Mas, mesmo assim, se errasse, começava tudo de novo. Três fachadas levavam um mês. Pintei Os Trapalhões, John Wayne, Mastroianni, Sean Connery, E.T., Jurassic Park... Fiz esse trabalho até os anos 90 — relembra Silveira, que teve, como marco da virada na carreira, o advento da plotter (impressora para grandes dimensões). — Isso tudo que fiz foi antes do computador. Mas também antes houve baques na atividade, como quando o Collor fechou a Embrafilme.

No mês que vem, a história chega ao Nordeste, no Cine Ceará e no Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe. No Rio, o filme deve passar em novembro. É torcer para que, na ocasião, Silveira transforme a si mesmo num vistoso cartaz.

Texto e imagem reproduzidos do site: oglobo.globo.com

domingo, 4 de agosto de 2019

Cinemateca Júnior: unir conhecimento e entretenimento




Fotografias gentilmente cedida pela Cinemateca Júnior.

Publicado originalmente no site UALMEDIA, em 16 de julho de 2019

Cinemateca Júnior: unir conhecimento e entretenimento

Por José Moreira

Localizada no Palácio Foz, na Praça dos Restauradores, em Lisboa, a Cinemateca Júnior é um espaço de aprendizagem, mas também de diversão. Nesta viagem, fomos saber aquilo que melhor define este serviço, bem como o seu impacto na vida das pessoas que por lá passam.

Da réplica do cenário de “Voyage dans la lune” à maquete de “L’homme à la tête de caoutchouc”, de Georges Méliès, do impressionante zootrópio à famosa laterna mágica, a entrada no espaço da Cinemateca Júnior dá-se com uma exposição de artefactos que marcaram a história do cinema. Esta é já uma premonição daquilo que nos espera. Há aqui um mundo mágico que aborda o cinema como um todo.

A missão da Cinemateca Júnior resume-se em duas palavras: conhecimento e entretenimento. Carla Simões, funcionária desde 2018, diz que o objetivo passa por “criar público para as salas de cinema. As novas gerações acabam por ainda ir ao cinema, mas é um tipo de cinema a que nós aqui procuramos oferecer alternativas. A partir do momento em que há uma série de plataformas em que se pode ver cinema na televisão, na internet e tudo mais… o hábito de frequentar uma sala está em perda. E a ideia é conquistá-los para essa experiência de ver um filme em sala e um determinado tipo de cinema que não vêem nas salas comerciais”.

O “tipo de cinema” de que fala Carla passa pela programação de clássicos da Sétima Arte, bem como pelo que é nacional. “Nós aqui também temos a preocupação de oferecer propostas do cinema português. Não funcionamos com um programa fixo para as escolas, temos uma proposta de programa que apresentamos e, depois, são as escolas que nos contactam para ver o filme A, B ou C. A Cinemateca tem um arquivo com uma coleção muito grande, nomeadamente de filmes portugueses. Interessava-nos era ter mais filmes portugueses sedutores para crianças. O cinema português é muito mais dirigido a adultos.”

Literacia cinematográfica

Este serviço “júnior”, criado em 2007, acompanha a par e passo o crescimento infantil do seu público, visando potenciar competências nas crianças para uma melhor compreensão do cinema. “Nós temos uma parceria com uma associação que se chama ‘Os Filhos do Lumière’ em que fazemos sessões/projeções e conversas. Falamos de cinema, acerca de quando é que foi feito o filme, quem o realizou… e também sobre a própria linguagem cinematográfica em termos de imagem e como é que comunica”, explica.

Este espaço familiar e educativo conta com uma oferta muito variada de ateliers. Maria de Jesus Lopes, na “casa” há nove anos, explica as temáticas que são abordadas. “Temos muitos ateliers dedicados ao pré-cinema, que é no fundo o assunto da exposição. A exposição é acerca de como nasceu o cinema, de um conjunto de espetáculos e eventos que já existiam antes e que foram essenciais para o cinema surgir. Coisas como a lanterna mágica, os brinquedos óticos, a fotografia, o teatro de sombras e a câmara escura. Há muitos ateliers que são baseados em coisas que se podem ver aqui na exposição e outros dedicados a alguns aspectos do cinema. Temos ateliers dedicados à animação, ao som e ao documentário. Alguns foram concebidos por nós e também por pessoas que trabalham ou trabalharam na Cinemateca Júnior, e outros são ministrados por monitores externos.”

A sala de exposição, repleta de inúmeros objetos como o “praxinoscópio”, as “vistas óticas” ou o “Mundo novo”, cria um ambiente em que se desperta tanto a curiosidade, como o fascínio pelos truques e ilusões de ótica criados há décadas. A área dedicada à fotografia encanta pela boa apresentação e a sala dos primórdios oferece a oportunidade de ver a primeira concepção de projeção de Edison, o “kinetoscópio”, bem como o cinematógrafo dos irmãos Lumière.

“É importante chegarem aqui e verem os objetos que estão em exposição. São coisas que muitas das vezes não conhecem. Não é uma curiosidade que tragam, surge mais quando aqui chegam”, explica Maria de Jesus Lopes. “Muitos já sabem, mas também apanhamos muitas outras crianças que não têm noção de que o cinema é uma ilusão de ótica criada a partir de uma imagem fixa, a fotografia. E acho que essa informação para eles, quando ainda não a têm, é mesmo surpreendente”, acrescenta Carla Simões.

A cabine onde a magia acontece…

À semelhança do filme “Cinema Paraíso”, de Giuseppe Tornatore, também na Cinemateca Júnior encontramos uma área que ainda suporta a projeção de filmes em película. Um suporte que tem vindo a desaparecer em muitas salas de cinemas graças às novas tecnologias digitais, mas que a Cinemateca não descarta e tenta manter para as suas projeções. Na cabine está o francês Michael Monnier, instalado em Portugal há 20 anos e projecionista da Cinemateca Portuguesa há 15. Junto a três projetores (em especial, 35mm) e com as caixas de película por perto, conta aquilo que o apaixona na profissão.

“O cinema é uma paixão que sinto desde criança. Costumo dizer que, quer esteja uma ou 500 pessoas na sala, o resultado tem que ser igual. Projeção de qualidade e, ao fim ao cabo, transmitir a minha paixão. Embora não seja responsável pela produção do filme, tento transmitir como o realizador ou o produtor quiseram. Essa é a minha principal motivação no trabalho”, confessa.

Face às inovações tecnológicas que possibilitaram diversas formas de se assistir a um filme, a experiência também se tem modificado ao longo do tempo. Tal como Carla Simões, Michael Monnier fala do espaço único que é a sala de cinema. “O cinema que vemos hoje é a magia que acontece na sala. Cada vez mais, assistimos a filmes ou sessões de qualidade em casa e… pronto! Mas não há nada que se compare com a sensação de ver cinema dentro de uma sala de cinema”, garante.

De pequenino se vai à cinemateca

À entrada para a exibição do clássico português de 1942 “Aniki Bóbó”, de Manoel de Oliveira, sente-se o entusiasmo das cerca de 50 crianças das turmas 3ªA e 3ªB da Escola Básica Adriano Correia de Oliveira. Para a professora do 3ºB, Carmen Carvalho, a ideia está em combater o estigma “cinema antigo é aborrecido”. A docente diz que “o objetivo para hoje é continuar a ‘trabalhar’ o filme que vimos ver. Pertence ao Plano Nacional de Cinema e acho que é importante eles conhecerem tudo o que foi do antigamente”.

Os valores associados ao cinema são algo que a professora entende como fundamentais. “Os miúdos estão muito agarrados aos tablets e a jogos. E conhecer novas vivências fá-los pensar para o dia a dia. É muito importante, aliás. Tivemos um trabalho em sala de aula sobre o filme que vimos ver e todos ficaram fascinados com o facto de o filme ser de 1942. O tema do filme veio já suscitar aqui muitas perguntas e curiosidades”, garante.

Durante a exibição do filme, ouvem-se gargalhadas das crianças, especialmente nos momentos que envolvem os personagens Carlitos, Pistarim e o lojista. O momento é de diversão e o preto e branco não distrai a experiência nas crianças. Após o final, uma salva de palmas propaga-se pela sala e as crianças expressam a sua opinião sobre o filme. A pequena Leonor, de 8 anos, da turma B, aborda o parâmetro da cor. “O preto e branco pode ser algo muito útil, ao príncipio pode ser esquisito e uma seca, mas depois fica fixe”, confessa.

Tal como a Escola Básica Adriano Correia de Oliveira, também outras escolas têm aderido à oferta da Cinemateca Júnior, uma tendência que, segundo Maria de Jesus Lopes, tem-se mantido estável. “Estamos mais ou menos estabilizados, mas aqui há alguns limites. Às vezes, as escolas querem cá vir e não podem porque, por exemplo, querem trazer um grupo muito grande a fazer oficinas e nós só conseguimos atender um grupo pequeno de cada vez. Houve um período em que havia um protocolo entre o Ministério da Educação e a Cinemateca, pelo qual a vinda aqui era gratuita. Então, tínhamos mais procura. Depois houve um reajustamento e diminuiu um bocadinho. Gostavámos de atingir mais pessoas, mas a verdade é que, devido às limitações de espaço e pessoal, não conseguimos fazê-lo.”

O interesse pelo cinema é aquilo que a Cinemateca tenta promover nos seus espetadores. Para Carla Simões, isto é aquilo que alegra o seu dia. “Eu gosto muito quando os miúdos saem daqui muito animados. Isto acontece, sobretudo, com os grupos até ao 1º ciclo. Não consigo ver reações tão exuberantes nas outras idades. Como também é uma paixão minha, gosto de partilhá-la e de sentir que naquele momento, pelo menos, chegou. Não sei se terá futuro, é possível que o gosto não se mantenha e que não seja perseguido pela maior parte dos miúdos, mas se houver um ou dois que a partir destas sessões fiquem com esta memória e que realmente fiquem com o gosto de ver o filme em sala é algo que me traz satisfação.”

Um espaço para todos… até para graúdos

Além da programação escolar, a Cinemateca Júnior conta ainda com uma programação fixa, disponibilizando sessões para o público em geral aos sábados, bem como a possibilidade de marcação de visitas destinadas ao público sénior. “Temos alguns grupos de juntas de freguesia que vêm aqui, não atendemos só crianças. Isto é um espaço interessante para pessoas de mais idade porque o cinema é antigo e eles vêm cá rever alguns filmes”, explica Maria de Jesus Lopes.

A caminho do visionamento de duas curtas-metragens, “Rentrée des classes” (1956) e “Petite Lumière” (2003), os alunos do 2º ano de Ciências da Comunicação da UAL demonstram já uma bagagem fílmica alargada. A reflexão crítica que se segue após os visionamentos, moderada pela coordenadora de serviços, Neva Cerantola, abre novas perpectivas para a compreensão e a literacia fílmica. Os alunos e a professora Maria do Carmo Piçarra expressam as suas ideias, e o ambiente torna-se um espaço descontraído de debate.

Diogo Vaz, 26 anos, faz o balanço positivo da sua visita. “Foi uma mais-valia termos vindo aqui. Não só pelo nosso curso, mas acho que toda a gente deveria vir aqui visitar o espaço, porque há uma história por detrás disto tudo. As pessoas que vão ao cinema, se calhar não têm uma noção de como é a história e de como foi feito o filme. Acho que, por isso, é uma mais-valia atender a este espaço.”

Um misto de curiosidade e fascínio faz-se notar neste público. Na visita à exposição, objetos como o “mundo novo”, a “laterna mágica” e os “brinquedos óticos” captam as atenções. Para Mónica Santos, 47 anos, a criação destas iniciativas é uma mais-valia da Cinemateca Júnior. “Eu já tinha uma ideia do que é que a Cinemateca fazia precisamente em termos de recuperação de espólio. Não tinha era a noção da existência destas iniciativas, especialmente para os mais novos. É muito interessante que eles façam isto para esta geração que está a aprender agora o que é a vida e o cinema.”

Janilson Júnior, de 31 anos, afirma que “o cinema é um artefício fundamental da sociedade. Através do cinema, a gente consegue-se divertir, ter conhecimento e, a partir daí, ter algum senso crítico para qualquer tipo de trabalho, para conversar com a familia ou até para não fazer nada. Para mim, é importante dentro de uma sociedade e a vinda aqui à Cinemateca Júnior foi muito boa”.

A missão da Cinemateca Júnior fica completa quando a mensagem é assimilada pelo público. O enlace entre conhecimento e entretenimento é aquilo que melhor define este serviço que tem como objetivo transmitir o gosto pela arte cinematográfica. Um espaço onde, no fim da visita, a visão sobre aquilo que é o cinema nunca mais será a mesma.

Texto e imagens reproduzidos do site: ualmedia.pt

terça-feira, 23 de julho de 2019

Entrevista com José Rubens Demoro Almeida

Imagem postada pelo blog para simples ilustração

Texto publicado originalmente no site Palavras de Cinema, em 09/05/2012

Entrevista com José Rubens Demoro Almeida

Por Rafael Amaral

Em seus encontros com estudantes e interessados por cinema em geral, o professor de direito José Rubens Demoro Almeida carrega alguns livros fundamentais para se compreender a sétima arte. Ou apenas para ter uma ideia de sua grandiosidade. Mas, ao lado dele, folhear os livros deixe de ser necessário. Basta ouvi-lo. Rubens relata, nessas sessões, os significados, os gestos ocultos, os signos e as representações que tanto inquietam à luz do projetor.

Em uma sessão no Cineclube Consciência, em Jundiaí, Rubens falou aos presentes após o grande musical Cabaret, de Bob Fosse, e não deixou de apresentar seus pontos de vista sobre as relações entre os palcos e o nazismo. Tentava mergulhar cada vez mais, revelar cada vez mais: passava por pensadores para falar das questões do controle, do totalitarismo e do mal como “gesto banal”. Está tudo em Cabaret, abaixo de sua música, abaixo do inesquecível sorriso de Liza Minnelli.

Quem viu tudo isso durante o filme de Fosse? Não se sabe. Mas, com a carga de conhecimento e referências de Rubens, as coisas ficaram um pouco mais claras aos participantes da sessão.

Desde agosto de 2009, Rubens coordena o Grupo Imago para estudos e pesquisas sobre Cinema e Direito com professores e alunos do Unifai (Centro Universitário Assunção), na Vila Mariana, em São Paulo. A turma reúne-se mensalmente para apresentar um filme escolhido e estudado previamente. Após a sessão, em gesto cineclubista, ocorre um debate no qual os participantes têm a oportunidade de expor ideias e pontos de vista. Ou, simplesmente, dizer se gostou do filme ou não.

Formado pela PUC-SP, em 1977, atualmente Rubens dá aulas de direito na Unifai. Como todo amante do cinema dedicado a compartilhar conhecimento, também passa por outras instituições, grupos e cinemas de rua – principalmente os de rua. Na entrevista abaixo, ele fala do trabalho com o Grupo Imago, da presença do cinema em instituições de ensino e de suas paixões pessoais.

O cinema deveria ser matéria de escola?

Em princípio, considero que as artes em geral deveriam ter um espaço próprio na educação e formação do aluno. No ensino fundamental, deveria haver um incentivo às crianças para o conhecimento e desenvolvimento artístico, o mesmo acontecendo em níveis deferentes de abordagens, nos ciclos posteriores. Quanto ao cinema em particular, entendo necessária uma adequação e uma nova visão de sua concepção e história. É de conhecimento geral o quanto as gerações recentes de alunos são ligadas às imagens nos mais diversos meios de comunicação. As tecnologias de transmissão de imagens tem se transformado assustadoramente e numa velocidade inusitada. Esta superexposição às imagens compromete um pouco a relação do jovem com o cinema, num sentido mais tradicional (uma sala escura, numa tela grande, na companhia de outras pessoas, em geral desconhecidos) porque não há – ou não tem ocorrido – uma educação do espectador do cinema, que o tem mais como simples diversão, sem compromisso. Como disciplina regular a ser ministrada em escolas, o cinema poderia acompanhar outras matérias que visem a formação integral do cidadão. O cinema pode e deve estar presente na escola, em todos os níveis educacionais, como importante e eficiente instrumento do ensino e da educação, formador e provocador de reflexões e visões críticas do mundo.

Como surgiu a oportunidade de coordenar um grupo de estudos e pesquisas focado em cinema? O que faz o grupo?

Sempre fui muito ligado ao cinema e em todas as minhas atividades, acadêmicas ou não, gostava de estabelecer relações com filmes que me vinham à lembrança, a partir de alguma ideia ou tema. Quando aluno de pós-graduação da professora Maria Garcia na PUC-SP, apresentei um trabalho com a exibição de alguns trechos de filmes e comentários sobre o contexto de produção, realização e sua importância na história e linguagem do cinema. E o trabalho nem era de comunicação ou de cinema em particular, mas de Direito. Posteriormente, procurei desenvolver mais este pequeno trabalho para dar-lhe um contorno mais acadêmico, de tal modo que pudesse ser integrado às linhas de pesquisas do Curso de Direito. Em 2009, apresentei o projeto de grupo de estudos de cinema e direito no Centro Universitário Assunção, a Unifai, onde hoje sou professor. A professora Lúcia Helena Polleti Bettini, coordenadora do Curso de Direito, não só o aprovou como o apoiou. Em agosto de 2009, iniciaram-se as reuniões do Grupo Imago de estudos e pesquisas em cinema, direito e educação, que permanece até hoje e reúne professores e alunos interessados principalmente em cinema.

Em seus encontros com alunos, com pessoas que possuem uma visão de cinema ligada apenas aos blockbusters e ao produto que está nas salas de shoppings, qual é a reação deles quando são confrontados com os filmes que você apresenta?

Posso comparar as reações de alguns alunos, e mesmo de alguns professores, às dos espectadores da sessão dos irmãos Lumière em 1895, que se surpreenderam com as imagens em movimento da chegada do trem à estação: espanto e curiosidade. O filme comentado, contextualizado, analisado, debatido é outro filme numa outra dimensão de compreensão do cinema: deixar de apenas “ver” filmes (sejam eles blockbusters ou não) para aprender a “ler” o cinema.

Lembra-se de alguma reação inesperada em um aluno nesse grupo ou mesmo em algumas andanças por outros cineclubes e sessões?

Tive boas experiências relatadas. Uma em especial – e da qual guardo como uma boa lembrança de uma reação inesperada – foi a de um aluno, pai de família, que participou de uma reunião onde foi exibido e debatido o filme CinemaParadiso, de Giuseppe Tornatore. É um filme a que recorro para salientar, no início dos trabalhos dos grupos, a paixão pelo cinema e como esta paixão transforma vidas e pessoas. Ao final da reunião, o aluno foi a uma locadora, alugou o filme e, à noite, “convocou” toda a família, mulher e filhos, para assistirem juntos. Pessoas que nunca – ou raramente – se juntavam num sábado à noite, cada um cuidando de seus interesses ou cumprindo outros compromissos, passaram duas horas assistindo a um filme que os emocionou muito, como relatou o aluno posteriormente, para as quais fez questão de lembrar os comentários e as observações do grupo.

Tive a oportunidade de participar algumas vezes de debates com você, em sessões de filmes variados, com públicos variados. Nelas, me chamou a atenção alguns pensadores que você trouxe à roda de discussão, como o Foucault. Considera importante mesclar o cinema à filosofia e a outras áreas do pensamento?

Considero essencial esta relação do cinema com outras áreas do conhecimento, em especial com a filosofia. O cinema provoca, instiga reflexões, olhares inusitados, questiona vidas e mostra uma porção particular da dimensão da existência humana. Esta apreensão da realidade, pela interpretação artística, demanda uma visão apurada. Afinal, durante duas horas entregamos nossos cérebros aos realizadores do filme, e isto não é pouca coisa. Estudo muito autores que abordam o cinema e os filmes com os olhares da filosofia, da história, do direito, da psicologia, da sociologia, além dos próprios teóricos do cinema (Bazin, Truffaut, Eisenstein, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, entre outros) ou críticos (J. B. Duarte, Inácio Araújo, Luiz Carlos Merten). Autores, como Michel Foucault, Theodor Adorno, sempre reservaram espaço em suas obras para reflexões filosóficas sobre o cinema, tanto como indústria de massa, tanto como produção artística. Slavoj Zizek tem ótimos ensaios e artigos sobre o cinema, um em especial sobre Hitchcock. Juan Antonio Rivera, professor espanhol de filosofia, usa o cinema em suas aulas e escreve muito sobre esta experiência ímpar de reflexão filosófica. Entre nós, Júlio Cabrera, argentino professor da Universidade de Brasília, estabelece em suas obras relações sobre cinema e filosofia, sem esquecer Edgar Morin, sociólogo e filósofo contemporâneo, que também dedica parte de sua produção às questões cinematográficas. Há uma vasta produção literária e filosófica sobre cinema, tanto no Brasil como no exterior. Explorar estas concepções e relações aumenta muito o prazer de assistir aos filmes.

Qual a visão, em geral, que o jovem universitário tem, hoje, do cinema? Dá para generalizar?

Não tenho tantos contatos assim com um número grande de universitários para poder generalizar uma concepção de visão deles sobre o cinema. A generalização seria perigosa pois seria parcial, de apenas alguns alunos de cursos superiores. Aqueles com quem mantenho conversas e mesmo aqueles que participam das reuniões dos grupos têm manifestado uma curiosidade e uma vontade de conhecer mais, instigados pelos filmes e debates que se seguem. Conheço também muitos alunos, jovens ainda, que são “cinéfilos” de carteirinha, com muita informação e referências de cinema, de causar inveja.

Nas investidas com este público, pensando na introdução do cinema, qual são os cineastas e filmes que você tem trazido às discussões?

Na introdução ao cinema a um público novo, gosto de fazer um apanhado geral da história e da evolução da linguagem cinematográfica, simples e didática: a partir dos Irmãos Lumière, de Mélliès, Eisenstein, Griffith. O primeiro sucesso popular de filme com trilha sonora sincronizada de OCantordeJazz, a exploração da cor em technicolor de …EoVentoLevou, ou de OMágicodeOz, passando pelos filmes referências do expressionismo alemão (O Gabinete do Dr. Calligari ou Nosferatu), do surrealismo (UmCãoAndaluz), o neorrealismo italiano (Roma,CidadeAberta, LadrõesdeBicicleta), a época de ouro do cinema norte-americano (Casablanca), a nouvelle vague francesa (Acossado, Osincompreendidos), o cinema dos anos 1970 (Sem Destino, A Primeira Noitedeum Homem, PerdidosnaNoite). Enfim, destaco apenas alguns filmes mais conhecidos, mas que auxiliam a despertar a necessidade de um conhecimento mais aprofundado, que poderá vir a seguir.

Existe alguma obra que você considera chave a essa introdução?

Não posso escolher um filme “chave” para esta introdução. Considero importante destacar a construção de uma linguagem própria cinematográfica a partir de A ChegadadoTrem à Estação (Lumière), passando por ViagemàLua (Mélliès), seguindo com Intolerância (Griffith) até EncouraçadoPotemkin (Eisenstein).

Já foi confrontado por algum aluno, ou mesmo alguém do público nestes encontros?

Não me recordo de ter sido “confrontado”. Não sei em que sentido a expressão foi empregada. Se já me deparei com atitudes, ou manifestações críticas, claro, fazem parte do debate, da discussão. O cinema proporciona inúmeras interpretações. Em geral, considero que o entusiasmo que manifesto nas sessões, o prazer de compartilhar ideias, reflexões, visões, a partir de filmes, fazem com que as participações sejam amistosas, animadas, alegres. Por conta disto, procuro me preparar bem para conduzir cada encontro: revejo o filme a ser exibido, estudo sua ficha técnica, confronto elenco, diretores, produtores, leio críticas e comentários sobre a obra, faço referências ao contexto histórico de seu tema ou de sua produção, para dominar o maior número de informações possíveis e fundamentar as discussões e os debates, para que todos, ou pelo menos boa parte dos presentes, ao final vejam “outro filme depois do filme”.

No campo de sua vida pessoal, como surgiu a paixão pelo cinema? Você assistia filmes durante sua graduação, em faculdades, quando era jovem?

Minhas lembranças de cinema são de infância e as devo muito a meus pais. Meu pai trabalhava como gerente de cinema. Minha mãe sempre gostou de cinema e comentava muitos sobre vários filmes. Sempre morei em bairro de São Paulo, numa época em que os cinemas de rua ainda existiam e eram uma das poucas diversões populares. Passava boa parte de meus dias no cinema, vendo e revendo filmes de todos os tipos e origens: brasileiros, espanhóis, franceses, mexicanos, italianos, japoneses e, claro, americanos. Era um pouco como o menino Totó de CinemaParadiso. Colecionava fotogramas, assistia ao filme da cabine de projeção e, como Truffaut (de A NoiteAmericana), colecionava cartazes e fotos de filmes. Depois, quando já cursava direito na PUC-SP, não perdia a oportunidade assistir aos filmes mais importantes, nos cinemas ou mesmo as exibições especiais promovidas pelos grêmios estudantis.

O que alguém como você, um adorador de Alfred Hitchcock, pensa do cinema americano atual?

Gosto muito do cinema americano, cresci com ele nas décadas de 1950 e 1960. Hitchcock tem muita importância para mim, sua filmografia, sua história, sua aguda e sarcástica apreciação da alma humana, dos dilemas e angústias humanas, que são universais. Que o diga Kurosawa, não é? Mas não é o único. Gosto muito de outras obras de outros diretores, de outras origens inclusive. O cinema norte-americano sempre viveu o dilema da pressão da indústria, do espetáculo, do mercado, em confronto com a qualidade dos filmes. Mesmo na época de grande produção americana dos anos 1940, não se pode negar que Hollywood produziu obras memoráveis e de notável qualidade artística, embora os grandes estúdios priorizassem sempre os lucros da produção. Hoje temos uma proliferação de filmes com grande apelo popular – ou, diria melhor, adolescente – porque este é o mercado a ser atingido e que dá retorno. Nem sempre estes “blockbusters”, que inundam a maioria das salas de cinema dos grandes centros de consumo, ficam marcados por sua qualidade e contribuição artística cinematográfica. É uma pena, porque acabam ocupando os cinemas e diminuem o espaço para outras obras, americanas ou não. Há bons filmes que acabam não sendo exibidos, e, quando são, ou ficam muito pouco tempo em cartaz, em apenas uma sala, num horário “alternativo”, ou vão direto para as locadoras em formato DVD, quando vão. Quantos filmes exibidos nas sessões da Mostra de São Paulo, por exemplo, seguem em carreira comercial? Alguns poucos. Outros tantos (ANostalgiadaLuz é um exemplo) são relegados ao acesso apenas na internet, porque nem em DVD são lançados. Este é um efeito perverso de filmes financiados por poderosos grupos econômicos, destinados ao consumo rápido e juvenil.

Entre aulas, debates e muito trabalho, resta tempo para ver tantos filmes recentes no cinema? O que assistiu de bom nos últimos meses nas grandes salas?

Resta tempo, sim, para ir ao cinema. Ir ao cinema faz um bem imenso. É uma experiência única. Mas tenho que selecionar bem o filme e a sala, porque o tempo é pouco. Escolho os filmes pela importância de sua produção, pelo tema abordado, pelo diretor e atores. Escolho o cinema pela qualidade de sua projeção e som. E, se possível, porque nem sempre é, sessões mais vazias. Assisti e gostei de Hugo, de Martin Scorsese, por razões óbvias. E de O Artista também. Gostei demais de A Separação, de Asghar Farhadi. Vi AÁrvoredaVida e Melancolia. Adorei UmConto Chinês. Gostei muito de OPalhaço.

O cinéfilo tende a ser um ser solitário ou o contrário, um ser com facilidade de se socializar devido ao convívio com outros, em uma sala escura?

Não me considero cinéfilo, mas um amante de cinema e de tudo o que lhe diga respeito. Sou um “cinemeiro”. Gosto de estudar, de ler, de escrever e preparar aulas sobre filmes, sobre autores, sobre o cinema. Eu gosto do cinema. E compartilho este prazer com muita gente (amigos, alunos, professores). Não há solidão no cinema. Você sempre está em boa companhia: Humphrey Bogart, Penélope Cruz, Ingrid Bergman, Grace Kelly, Woody Allen, Charles Chaplin. Quem poderia querer mais?

Existe algum risco de a internet acabar com o ritual coletivo de ir ao cinema?

O cinema, ao longo de sua história, foi sempre confrontado por outras tecnologias. Quando silencioso, sofria a concorrência do rádio. Depois, com a televisão, teve que aumentar as dimensões da tela e produzir em cores e com som estereofônico. Depois com a técnica em 3D. A internet, não se pode negar, é a “senhora” de nossos tempos. Mas não tem a magia do “escurinho do cinema”. E não impedirá o que você chama de “ritual coletivo de ir ao cinema”, se contarmos com os trabalhos de todos os amantes, cinéfilos e educadores apaixonados pela sétima arte.

Texto reproduzido do site: palavrasdecinema.com

CINEMA: Revolução em dois tempos, por José Geraldo Couto

Imagem: Hallina Beltrão

Publicado originalmente no site Revista Continente, em 01 de janeiro de 2015

CINEMA: Revolução em dois tempos

No começo do século 20, o setor passou rapidamente de curiosidade tecnológica à indústria, que hoje luta para manter seu poderio

Texto: José Geraldo Couto*

Conteúdo vinculado à reportagem especial | ed. 169 | jan 2015

Fascinante o desafio proposto pela Continente: cotejar as mudanças experimentadas pelo cinema nos primeiros 15 anos do século 20 com aquelas verificadas nos primeiros 15 anos do século atual.

À primeira vista, não haveria comparação possível, pois entre 1900 e 1915 o cinema viu surgirem – ou consolidarem-se – as bases tecnológicas, industriais, estéticas, culturais, sociais e políticas que fariam dele a “arte do século” e o modo hegemônico de narrar ficções, registrar a realidade e criar mitos de nossa era.

Antes de abordar a mais recente década e meia e suas possíveis revoluções, cabe observar mais detidamente o que estava acontecendo com o cinema 100 anos atrás. Na primeira década do século 20, o cinema passou rapidamente de curiosidade científica (irmãos Lumière) e espetáculo de feira (Méliès) a meio de expressão autônomo, com uma linguagem própria e toda uma economia que encadeava a produção, a distribuição e a exibição.

O sucesso das primeiras apresentações em feiras, parques e teatros de variedades propiciou o surgimento dos nickelodeons, salas populares de exibição que cobravam um níquel pelo ingresso para sessões contínuas de filminhos de um rolo. Essa espécie de “cinema 1,99”, que se espalhou por vários países, em especial pelos Estados Unidos, gerou o capital inicial dos futuros magnatas dos grandes estúdios hollywoodianos, em geral judeus pobres vindos do Leste Europeu.

Ao mesmo tempo em que os aperfeiçoamentos tecnológicos permitiam a realização de filmes mais longos, toda uma linguagem narrativa, com sua gramática e sintaxe próprias, foi sendo constituída. O maior responsável pelo desenvolvimento dessa linguagem, como se sabe, foi o pioneiro norte-americano D. W. Griffith (1875-1948), que introduziu recursos como o close, a montagem paralela e vários dos movimentos de câmera que se tornaram corriqueiros.

É de Griffith também o longa-metragem fundador do cinema americano, O nascimento de uma nação, lançado justamente no ano que fecha o período que estamos examinando, 1915. Um ano antes, o italiano Giovanni Pastrone havia realizado o monumental Cabiria, épico histórico ambientado em 300 a.C. que exerceria grande influência sobre o longa seguinte do próprio Griffith, Intolerância (1916).

Ao lado do drama histórico, do documentário, da comédia de costumes e do melodrama romântico que davam seus primeiros passos no cinema europeu, surgiam nos Estados Unidos alguns gêneros especificamente americanos, como o western e o filme de gângsteres.

Estava em curso uma substituição, que seria acelerada pela Primeira Guerra Mundial (1914-18), da hegemonia da produção francesa pela americana, o que se explica, entre outros motivos, pelo afluxo constante e massivo de imigrantes e pela pujança econômica da jovem nação.

E dentro dos próprios EUA verificava-se um importante deslocamento geográfico da produção cinematográfica, do nordeste do país (Nova York) para o extremo oposto, o sudoeste (Los Angeles). Essa mudança de eixo teve várias razões. Em primeiro lugar, o desejo dos produtores de fugir do controle de patentes de Thomas Edison, que, baseado em Nova Jersey, cobrava royalties pela utilização de equipamentos que ele alegava ter inventado. Além disso, havia o clima propício da Califórnia, com sol o ano todo, e a proximidade com os mais diversos tipos de paisagem (mar, montanha, deserto). Somando-se a tudo isso a abundância de terrenos relativamente baratos na região, é possível entender o surgimento de um polo de produção em Hollywood, então um arrabalde de Los Angeles.

NASCE UMA INDÚSTRIA

Livres do tacão de Edison, os produtores enriquecidos com a exploração dos nickelodeons começaram a estabelecer em Hollywood seus grandes estúdios. O primeiro, a Universal, surgiu em 1912. Em seguida, vieram a Paramount e a Fox, em 1916.

Portanto, os passos dados pelo cinema entre 1900 e 1915 são gigantescos. Seu sentido, por outro lado, é bastante ambivalente. Pois, ao mesmo tempo em que abre horizontes e desenvolve uma linguagem própria, o cinema também cristaliza algumas formas duradouras de conservadorismo, com a consolidação de estruturas narrativas codificadas em gêneros, o predomínio da lógica industrial e a hegemonia geopolítica norte-americana.

Ao longo das décadas seguintes, surgirão, sobretudo na Europa, mas também no próprio seio dos EUA, movimentos e correntes alternativas a esse modelo hegemônico, mas em linhas gerais ele predomina até hoje.

Agora, vamos dar um salto de 100 anos até o início do século atual. O que mudou, de fato, no cinema nos últimos 15 anos? Em termos de linguagem, de invenção narrativa ou estética, praticamente não surgiu nada de novo. Quanto à tecnologia, muitas são as novidades. Algumas delas talvez sejam fugazes e cosméticas; outras vieram para ficar e podem transformar de modo mais ou menos profundo o cinema tal como o conhecemos.

Fala-se muito do 3D, por exemplo, mas não se trata propriamente de uma inovação, e, sim, do aperfeiçoamento, propiciado pela tecnologia digital, de uma ideia testada pela primeira vez em 1915, e que desde então passou por diversas experiências e processos.

O curioso, no caso do 3D, é que, com exceção de algumas aventuras mais autorais (A caverna dos sonhos esquecidos, de Werner Herzog, Pina, de Wim Wenders, ou Adieu au langage, de Godard), a técnica tem sido usada para reforçar os aspectos espetaculares de filmes destinados ao público infantojuvenil e justifica-se mais pelo aspecto de curiosidade de feira do que pelo que acrescenta às possibilidades expressivas do meio. Corresponde, por um lado, a uma certa infantilização do público de todas as idades e, por outro (que talvez seja o mesmo), a uma espécie de embotamento ou anestesia dos sentidos numa época de saturação audiovisual, de tal maneira, que o espectador parece precisar de estímulos cada vez mais fortes e óbvios para ter alguma emoção. Com exceções, os filmes de ação convertem-se em gigantescos videogames, cheios de som e de fúria significando nada.

Mas uma revolução mais radical é a que ocorre nos meios de captação, tratamento e difusão da imagem e do som. Câmeras digitais relativamente baratas tornam muito mais acessível a produção de obras audiovisuais do que na época dos equipamentos pesados da filmagem em película de 35 milímetros. Os processos eletrônicos de edição também facilitaram e baratearam drasticamente a finalização de filmes, tanto de ficção como documentários.

Mais que isso: as novas tecnologias multiplicaram as formas de recepção das obras audiovisuais. Em suas primeiras décadas, os filmes só podiam ser vistos no cinema. Depois, passaram a ser difundidos pela televisão, pelo home vídeo, pelo DVD. Hoje, as plataformas são inúmeras: computador, tablet, celular – além das que foram citadas.

Em princípio, portanto, estão dadas as condições tecnológicas que potencialmente poderiam romper o poder hegemônico dos grandes impérios audiovisuais que começaram a ser construídos um século atrás. Na prática, porém, não é bem isso o que ocorre. Um exemplo é o da distribuição. Com a substituição da película pela produção audiovisual digital, que prescinde de um suporte físico, em tese, um filme (curto ou longo, de ficção ou documentário, nacional ou estrangeiro) poderia circular livremente, sem precisar submeter-se ao jugo das grandes distribuidoras. No entanto, os sistemas de codificação e decodificação de sinais a que estão submetidas as salas exibidoras mantêm o poder de distribuição – e, consequentemente, de ocupação das salas – nas mãos das chamadas majors.

Fora do circuito de salas exibidoras, o contexto é mais pulverizado e, até certo ponto, livre. Filmes e séries feitos diretamente para a internet acabam encontrando seu público, à margem das velhas estruturas. Trabalhos audiovisuais captados com celular ou tablet já têm seus canais de difusão e até seus festivais. Mesmo filmes “comerciais” são baixados e difundidos (por via legal ou pirata) por computador.

UMA NOVA CINEFILIA

Em função desse conjunto de mudanças, tem havido uma transformação visível de perfil do público de cinema (majoritariamente jovem e de classe média urbana, dado o confinamento das salas em shopping centers e multiplexes), com o circuito ocupado cada vez mais por um punhado de blockbusters e a consequente exclusão das produções independentes e oriundas de cinematografias não hegemônicas. No Brasil, onde agora temos também nossos próprios estouros de bilheteria (todos, invariavelmente, da Globo Filmes), esse processo é flagrante.

Como resultado dessas mudanças no cinema como comércio, há também uma transformação da cinefilia, ou do cinema encarado como arte. Perde peso, com exceção de certas mostras e festivais, o comparecimento ritual às salas de exibição como locais de culto, discussão e celebração. A sala de cinema passou a ser o templo do consumo descartável, onde a pipoca tem importância equivalente à do filme exibido, se não maior.

A cinefilia foi banida para a internet, para os filmes baixados e compartilhados, para os sites, blogs e revistas digitais que cumprem, hoje, grosso modo, o papel que no passado foi dos cineclubes e das publicações impressas. É uma cinefilia atomizada. Daí a euforia que percebemos nos olhos, palavras e gestos dos frequentadores de eventos como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o Festival do Rio ou a Janela Internacional de Cinema do Recife. É o reencontro, ainda que fugaz, com o cinema como lugar de descoberta, comunhão, sonho coletivo. Hoje, como há 100 anos.

* JOSÉ GERALDO COUTO, crítico de cinema, jornalista e tradutor. Autor de André Breton (Brasiliense) e Brasil: anos 60 (Ática).

Texto e imagem reproduzidos do site: revistacontinente.com.br

sábado, 20 de julho de 2019

Fetiches de Cinéfilos

Museu Mazzaropi

Projetor IEC, 16mm, sonoro


Arquivo de filmes

Moviola

Enroladeira e projetores, na Cabine de Projeção

Carretel  com película de 35mm.

Cabine de Projeção

 Projetores 35mm.

Sala de Cinema.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

ONG produz sala de cinema portátil e ecológica





Créditos: Undercurrents

ONG produz sala de cinema portátil e ecológica

Sala de exibição a energia solar acomoda até 12 crianças

Por Redação Galileu (Editora Globo)

A primeira sala de cinema móvel abastecida a energia solar usa quatro baterias de lítio que são carregadas por dois painéis solares de 120 Watts cada. Batizada de "Sol Cinema", é um projeto sem fins lucrativos da ONG britânica Undercurrents.

A sala é montada em um trailer dos anos 1960 e acomoda até oito adultos ou 12 crianças. O grupo teve a ideia para projetar filmes em festivais e outros eventos itinerantes. Eles usam um projetor de LED para exibir curtas, clipes musicais e comédias pelo Reino Unido.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistagalileu.globo.com

sábado, 15 de junho de 2019

As últimas videolocadoras à moda antiga de São Paulo

Pereira, da Vídeo Connection: “Faço o que faço por paixão”
Reinaldo Canato/Veja SP

Publicado originalmente no site da revista VEJA SÃO PAULO, em 28/04/2017

As últimas videolocadoras à moda antiga de São Paulo

Após a derrocada desse tipo de negócio, alguns estabelecimentos resistem ao tempo e atraem cinéfilos nostálgicos

Por Carolina Giovanelli

Esquadrinhar as prateleiras por meia hora em busca do filme ideal. Descobrir que todas as cópias do último lançamento já foram locadas. Bater um papo com algum funcionário cinéfilo para obter indicações. No caixa, tentar lembrar de cor o número de sua carteirinha. Pagar multa porque não deu para ver tudo no prazo ou, nos tempos do VHS, esqueceu de rebobinar a fita.

Antes tão comuns, as idas à videolocadora tornaram-se programa praticamente do passado. Após o quase desaparecimento desse tipo de negócio, ainda há endereços que resistem ao tempo e fazem a alegria da turma nostálgica.
  
Muitos dos empreendimentos remanescentes, porém, tomam hoje o cinema como coadjuvante. Depois da compra da marca Blockbuster, parte da Lojas Americanas, por exemplo, conta com o serviço, mas de modo acanhado, em meio a um mundaréu de outros produtos.

Entre as poucas videolocadoras à moda antiga por aqui, aparece a Vídeo Connection, instalada no térreo do Edifício Copan, no centro. Muita gente que não costuma frequentar o pedaço passa por lá como se deparasse com uma joia rara. Dia sim e outro também, o sócio Paulo Sérgio Baptista Pereira ouve interjeições de saudade ou espanto — há criança que nem sabe para que serve o lugar.

De seus 60 anos, 32 são dedicados ao imóvel de 50 metros quadrados, distribuídos em três pequenos andares. Nos tempos áureos, na virada dos anos 90 para os 2000, eram locados até 4 000 filmes por mês. Hoje, são aproximadamente 750.

“Faço o que faço por paixão, não para ficar rico”, afirma Pereira, que assiste a pelo menos quatro produções por semana e tem dicas do que ver na ponta da língua. Em um discreto ato de resistência, ele não tem em casa nem TV a cabo nem Netflix, alguns dos pivôs da derrocada do mercado.

Petruche, no Charada: 880 filmes alugados em um só dia nos tempos áureos 
Foto: Ricardo D'Angelo/Veja SP

O empresário chegou a empregar cinco funcionários. Agora, cuidam do espaço somente ele e a filha, a psicóloga Daniela. Faturam por mês cerca de 6 000 reais, ante os mais de 20 000 reais do passado. A clientela é formada principalmente por moradores do complexo e dos arredores. Mas existem interessados que se deslocam de outros bairros apenas para aproveitar a experiência das antigas.

Outra referência no mercado é Gilberto Petruche, de 61 anos. Desde 1995, o paulistano toca o Charada Clube, na região de Sapopemba, na Zona Leste. Trabalha com uma variedade de 17 000 títulos em DVD, Blu-ray e VHS. Assim como a Vídeo Connection, seu negócio costuma dar um prazo mais flexível às devoluções.

A fim de movimentar o espaço, promove há um ano shows de rock de bandas independentes — o próximo será em 13 de maio. Os grupos ocupam a sala de produções pornôs (hoje, “escondidas” em pastas) e reúnem até 200 pessoas durante o dia. As vendas de discos de vinil e de parte do acervo de filmes ajudam a reforçar o orçamento.

Entre as raridades, está a fita Amor Estranho Amor (1982), longa em que Xuxa aparece em uma cena picante com um adolescente. Petruche avalia a pérola em 5 000 reais, mas, por enquanto, não quer abrir mão dela. Há um ano, o proprietário amarga prejuízos. “Houve uma época em que entravam 35 000 reais por mês, e já aluguei 880 filmes em um só dia”, lembra ele, que chegou a comprar 55 cópias de Titanic. “Atualmente, ganho 2 000 reais, que são gastos com aluguel e outras despesas. Estou na UTI.”

As videolocadoras perderam a força principalmente por causa da pirataria, da TV a cabo e dos serviços especializados na internet, como a Netflix. Até as grandes redes se renderam à crise. Especializada em títulos cult, a 2001 Vídeo fechou as portas em 2015. Hoje, atua apenas no papel de e-commerce.

Em junho, estreia o documentário CineMagia — A História das Videolocadoras de São Paulo, que relembra a trajetória desses pontos desde seu surgimento na cidade, nos anos 70. Filmado a partir de 2014, durante dois anos, ele capturou o último suspiro de algumas cadeias. “Foi tudo muito rápido”, diz o diretor, Alan Oliveira. Neste ano, o cineasta pretende também lançar um livro e uma websérie com as dezenas de depoimentos coletados.

Texto e imagens reproduzidos do site: vejasp.abril.com.br