sexta-feira, 31 de agosto de 2018

M.V. Pacheco ENTREVISTA Wilson Cunha

 



Wilson Cunha - Responde as 7 Perguntas Capitais 

Por M. V. Pacheco

Carioca nascido em 1941, é jornalista de formação. Começou a se interessar por cinema ainda na época de estudante. Foi redator do Caderno B, do Jornal do Brasil, e da revista Manchete. Crítico de cinema, foi diretor dos canais Multishow (de 1993 a 2009) e do Canal Brasil (de 1993 a 2003). Em 2009, foi contratado pela Telecine Productions, marca da Rede Telecine que assina coproduções cinematográficas, passando a exercer a função de consultor para desenvolvimento de projetos nacionais e realizando a análise e seleção de roteiros e novos projetos para coprodução do Telecine.

Foi conservador adjunto da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, entre 1964 e 1967, e, ao lado de Fabiano Canosa e Cosme Alves Netto, se tornou um dos responsáveis pela programação do cinema Paissandu, símbolo de uma cinefilia que ficou conhecida como "geração Paissandu".  Foi o primeiro diretor do departamento de cinema da Rede Manchete, quando criou e apresentou o programa Cinemania e deu grande visibilidade ao cinema brasileiro. No Multishow desenvolveu, pela primeira vez no mercado de TV por assinatura, uma programação sistemática de cinema brasileiro.

Deu formato ao Canal Brasil, no qual foi o primeiro diretor. O canal, representado por Wilson, foi o ganhador do Prêmio de Contribuição ao Cinema Brasileiro no Grande Prêmio Brasil de Cinema de 2000.

E com muita honra, Wilson hoje é nossa vítima das 7 perguntas capitais.

1.Quando nasceu sua paixão pelo cinema? Houve aquele momento em que olhou para trás e pensou: sou cinéfilo !!??

W.C.:Antes da paixão foi o fascínio: por volta dos 4/5 anos o garoto gorduchinho foi ao cinema e, perplexo, viu um "presépio que se mexia". Era uma primitiva "Vida de Cristo".Levou um tempo até Oscarito, Bob Hope, Jerry Lewis & Dean Martin, Errol Flynn e John Wayne entrarem em cena. Agora o tal momento do "ferrou" foi quando, no início da adolescência - depois de um sensacional "Torneio Início do Campeonato Carioca" - pra quem ainda não estivesse nem aí, eram uma série de partidas entre clubes jogadas no mesmo dia e no mesmo Maracanã, verdadeira maratona de que o Vasco quase sempre se sagrava Campeão!!!! - pedi ao meu pai que, ao voltar do Maraca pra casa,  parasse o carro no Cine Santa Alice.Os velhos ficaram chocados ! (risos).

2.Coleciona filmes, cds ou algo relacionado à 7ª arte ? Quem curte cinema, costuma ter suas relíquias em casa...

W.C.:Já tive coleção de Cahiers du Cinéma ( desde os de capinha amarela), Sight and Sound, Cadernos de Cinema, páginas e páginas de cinema do Correio de Manhã,até mesmo uma penca de artigos meus da Tribuna de Imprensa, |O Jornal, Jornal do Brasil, Revista Manchete além de um sem número de trilhas sonoras ( primeiro em vinil, depois em CD), centenas de Dvds, paredes do quarto cobertas com cartazes de cinema, camisetas - e tudo mais que se possa imaginar.

Nos últimos anos tenho cultuado o desapego e distribuído entre amigos a maioria do material, digamos, não fundamental.Por enquanto, continuam guardados comigo alguns remanescentes muito queridos - quem sabe em mais alguns anos de análise....

3.Seu trabalho à frente do Cinemania na TV Manchete foi um dos mais importantes na minha formação cinéfila. Eu não perdia um programa, que apresentou à partir de 1988, se não me engano. Pode contar algumas curiosidades sobre o programa? Pode ser alguma história de bastidores ou mesmo das cartas que os telespectadores enviavam..

W.C.:A televisão é uma série de felizes " acidentes" em minha vida pessoal e profissional. Eu estava na redação da Manchete, envolvido com  o fechamento dos layouts, quando o Pedro Jack Kapeller, diretor-superintendente da Rede Manchete de Televisão,  se aproximou da minha mesa e me perguntou se que eu queria dirigir o Departamento de Cinema da TV Manchete que estava sendo implementada. Aceitei e levei a máquina de escrever (!) da Redação da revista pois a tv ainda estava no osso...

Na TV, aconteceu outro feliz "acidente": o convite de Luiz Gleiser para criar especiais de cinema - "50 anos de Balangandãs", em torno de Carmem Miranda, " A Magia do Cinema", etc - possibilitando a minha incursão pelo "fazer TV". O próximo passo, foi o nosso Cinemania - e eu nunca cansei de dizer para a equipe que quanto mais nos divertíssimos, mais o espectador entraria na nossa vibe. Sempre buscamos o lúdico - e, isto, inclusive, creio, atraiu um publico muito jovem. Levávamos informação mas, ao mesmo tempo, evitavamos qualquer ar professoral.

As cartas são um caso à parte. Houve um tempo em que um jornal semanal, Shopping News, era entregue, gratuitamente, de casa em casa. Alex Viany era o responsável pela parte de cinema e lançou um concurso: a cada semana publicaria uma critica do leitor - e, pra mim, ainda adolescente, foi uma tremenda emoção quando vi minha primeira crítica publicada. acreditei que envolvendo, de alguma forma, o emotivo dos espectadores, o "Cinemania" estaria chegando mais perto do espectador. deu certo.

M.V.:Nossa, que legal...

W.C.:Agora, uma curiosidade: muitas vezes, quando um daqueles clipes especiais do programa não ficava muito bom, eu mesmo escrevia uma carta reclamando, pedindo que fosse refeito, e ia postar no correio aqui perto de casa..e o clipe era refeito....( Hoje nem a agência do correio existe mais...)

Outra de bastidores: para colocar o primeiro programa no ar - selecionar aquelas vinhetas era uma coisa de louco - passei 36 horas na emissora....

M.V.:Sério? Meu Deus...

4.Qual experiência, dentro do universo cinematográfico, que mais te marcou?

W.C.:A realização. Ter sido assistente de direção do Paulo Cesar Saraceni em "Capitu", produtor associado do Maurício Gomes Leite em "A Vida Provisória", me fez mergulhar, profundamente, nos intrincados processos de criação, na dificuldade, muitas vezes, dos realizadores em perceber as armadilhas em que estariam caindo. Ao mesmo tempo, consolidou em mim, a certeza de que ao crítico não cabe levarem consideração as dificuldades dos meandros criativos. Cada um dos espectadores também tem seus problemas - e, na bilheteria, além da meia-entrada ( nem sempre devida, é verdade), não fica pedindo misericórdia.

5.Cinéfilos tem suas preferências. Existe uma lista dos "filmes da sua vida"?

W.C.:Esta é, sempre, a parte mais difícil. Citarei alguns: "Dois Destinos", de Valério Zurlini, "30 anos esta noite" de Louis Malle, "A Marca da Maldade", de Orson Welles,os filmes de Blake Edwrads - sem dúvida meu diretor favorito e a quem tive o prazer de entrevistar em Londres, "O Homem do Sputnik", de Carlos Manga, "O Professor Aloprado" ( e uns tantos outros de Jerry Lewis), "Oito e Meio" ( e uns tantos outros) de Fellini, os westerns de Howard Hawks, os musicais de Minnelli.... e a lista continuaria infinita até filmes tão fortes quanto os atuais "O Insulto" ou " Três Anúncios para um Crime". Só lamento que o prazer pela aventura de um "Superman, o filme" tenha sido esmagado pela pasteurizada e tonitroante  produção em massa da Marvel.

M.V.:Bom, na minha opinião, o Superman do Donner continua o melhor e mais charmoso filme de herói já feito.

6.Fale um pouco sobre os seus próximos projetos, ou algum que esteja trabalhando neste momento.

W.C.:Atualmente, após mais de 50 anos de trabalho, de escrever mais que um escravo egípcio às voltas com os papiros, desenvolvo apenas o projeto de tentar viver o melhor possível - nestes tempos tão impossíveis em que todos parecemos ter perdido o juízo. Buscar o equilíbrio já me parece um esforço tantálico.

Neste período, chamemos de sabático, redescobri um prazer adolescente - frequentar as matines dos cinemas em dia de semana. É a quintessência da felicidade.

7.E se pudesse deixar uma lição do tempo que se dedicou ao cinema, qual seria?

W.C.:Viver intensamente o cinema, abrindo os olhos para tudo o que a tela nos oferece - saber "ver" um filme é mergulhar na diversidade que  tem a nos oferecer e, a partir dele, perseguir as pistas - intelectuais, emocionais - que ali nos são apresentadas. O cinema me salvou de uma possível vida medíocre: me deu amigos e, acima de tudo, um amor.

M.V.:Obrigado amigo...Foi uma prazer.

Texto e imagens reproduzidos do site tudosobreseufilme.com.br


domingo, 19 de agosto de 2018

História e Cinema


História e Cinema

O cinema foi inventado em 1895 e desde então vem se aperfeiçoando como tecnologia e como arte

Por Cláudio Fernandes

As relações entre História e Cinema são amplas e variadas. Podem abranger tanto os aspectos da história do cinema quanto temas históricos que são abordados em filmes, desde o início do século XX até os dias de hoje.

O projetor cinematográfico foi inventado em 1895 pelos irmãos Lumière. Desde então, uma nova forma de captura de imagens da realidade visível tornou-se imperativa. Antes, apenas a fotografia conseguia fazer uma captura de forma precisa, porém a imagem permanecia fixa, imóvel. O cinematógrafo dos Lumière possibilitou a captura da imagem em movimento, ou da “imagem-movimento”, provocando uma verdadeira revolução tecnológica.

Nas décadas iniciais do século XX, começou a ser desenvolvida a arte cinematográfica, isto é, o cinema passou a ser algo mais do que uma forma de capturar imagens em movimento ou um mero artefato tecnológico, e sim um tipo de instrumento que conseguia produzir obras de arte, tomando como referências outras artes, como a arte dramática, a pintura e a literatura. É o caso, por exemplo, das escolas de cinema expressionista e surrealista.

Ao longo do século XX, o cinema foi se transformando em uma grande indústria de entretenimento, ao tempo que foi aprimorando as técnicas da arte dramática. O cinema desenvolvido nos Estados Unidos da América, sobretudo em Hollywood, foi o responsável pela popularização do gosto pelas salas de cinema como local de entretenimento em várias regiões do mundo. Temas como o melodrama e o faroeste (que se ambienta no meio Oeste americano, na época da marcha para o Oeste do século XIX) estão, até hoje, entre os mais populares.

Com o aprimoramento das técnicas de filmagens e produção de efeitos especiais, gradativamente foi possível produzir filmes que tivessem temas históricos, futuristas e de ficção científica. O cineasta Stanley Kubrick soube explorar bem esses gêneros em filmes como Laranja Mecânica, 2001: uma Odisseia no Espaço e Glória Feita de Sangue.

Há muitos outros exemplos de filmes que abordaram temas especificamente históricos e tornaram-se clássicos do cinema, sendo desde então objeto de pesquisa para especialistas e fontes alternativas para ensinar e aprender algum conteúdo de História. É o caso, por exemplo, de filmes como o Gladiador (que aborda a história do Império Romano na época do imperador Marco Aurélio), Coração Valente (que aborda a história da tentativa de independência da Escócia em relação ao Reino Unido) e O labirinto do Fauno (que aborda a história da Guerra Civil Espanhola, que se passou nos anos 1930).

Mas em que medida é possível aprender história com o cinema? História e Cinema encontram-se na medida em que se estuda a história do cinema e avaliam-se e apreciam-se os filmes que abordam temas históricos. Entretanto, deve-se ter mente que, assim com a literatura, o cinema possui enredo ficcional, com trama articulada e personagens construídos, ainda que o tema seja histórico. O cinema não deve ser encarado como um “decalque” da realidade histórica, mas sim como uma forma especial de abordar um tema histórico, o que auxila, por sua vez, na compreensão da História.

Texto e imagem reproduzidos do site: escolakids.uol.com.br

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Museu do Cinema nas Missões, no Rio Grande do Sul

O Museu leva o nome de Vivaldino Prado.
***************************************************
Ele dedicou mais de 60 anos de sua vida ao cinema, adquirindo, selecionando e 
catalogando peças e histórias que hoje são de grande valor 
e divulgando a 7ª arte na Região das Missões









Texto e imagens reproduzidos do site: portaldasmissoes.com.br

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Análise: Cinéfilo, uma arte além da diversão


Publicado originalmente no site Maxiverso, em 27/09/2017

Análise: Cinéfilo, uma arte além da diversão 

Por Rodrigo Rodrigues *

Antigamente, os cinéfilos que procuravam se aprofundar um pouco mais sobre um filme através das críticas, ficavam a mercê de poucas publicações periódicas; ou senão, as opiniões vinham de poucos críticos de grandes veículos, cujas análises não eram tão aprofundadas e embasadas em linguagem cinematográfica em si (não que esteja errado, mas para minha visão de crítica de cinema isso é pouco).

Com o advento da Internet, centenas de blogs e sites se multiplicam na rede (inclusive o próprio Maxiverso) falando sobre cinema e afins. Todavia, parece que proporcionalmente ao fato de nunca ter se falado tanto sobre cinema em termos quantitativos, torna-se cada vez mais difícil encontrar veículos ou até mesmo críticos independentes que realmente estejam dispostos a discutir cinema como um todo e não somente dizer algo sobre um grande lançamento de determinado filme de super-herói ou falar apenas se o filme é “bom ou ruim”.  Tanto que este gênero (de heróis) foi também um dos principais motivadores a escrever esta crônica, pois a cada crítica que publico sobre um filme baseado em HQ, a reação dos tais fanboys acaba tornando a discussão sobre cinema, em muitos casos, em vão.

Acredite, é desmotivador você escrever, dedicar, contextualizar, pesquisar, estruturar e revisar um texto para no fim uma pessoa comentar que “o crítico é tendencioso e prefere determinado personagem de um editora de quadrinhos em detrimento ao da outra“, discussão esta completamente inútil e irritante. Ou, quando não, a única coisa que a pessoa atenta para um texto de quase 1.000 palavras é o número de estrelas dado ao filme. Inclusive, o Maxiverso publicou um texto sobre a tal “guerra entre Fãs x Críticos”, baseado no filme Batman vs. Superman – A Origem da Justiça (leia aqui).

Assim, até aos dias atuais, acho que mesmo que tenhamos excelentes sites sobre o assunto, pouco se evoluiu com relação a estes formadores de opiniões e mídia em geral em criarem um público mais crítico e que consiga enxergar um filme além de um simples entretenimento –  fazendo com que o espectador procure mais respostas que perguntas dentro de um filme, como tão bem disse o diretor Michael Haneke sobre o cinema americano. Enfim, poucos são os profissionais (ou veículos) que buscam passar um conhecimento técnico e apurado para o público, e não necessariamente somente dizer se o filme é bom ou ruim, ou se gostou ou não do filme, mas sim contextualizar a obra – tanto socialmente quanto historicamente  – através de um texto agradável de se ler fazendo o leitor a buscar mais sobre o assunto e despertando o debate sobre determinado assunto. Para cada site que se preocupa em desenvolver um público com consciência cinematográfica, existem outros tantos que apenas passam um informação de maneira superficial, agressiva , por vezes infantilizada querendo chamar mais atenção que o próprio filme em si.

Se gostamos ou odiamos um filme, isso aconteceu por uma série de decisões dos realizadores que levaram àquela sensação que tivemos ao vê-lo,  até porque boa parte do que acontece dentro do cinema (filme) foge do empírico.

Ademais, para minha imensa decepção, percebo que muitos ditos críticos que preenchem, por exemplo, as cabines de exibição para imprensa (e sites), apesar de terem bom conhecimento para discutir um filme como alguém que ama o cinema (algo obrigatório para exercer o papel de crítico), parecem negligenciar muitos aspectos técnicos e humanos quando analisam uma obra. Assim quando vejo um filme que apresenta claramente problemas em sua narrativa e algumas pessoas sequer identificam conceitos básicos de um roteiro – algo comum, por exemplo, em um filme baseado em livros, me pergunto o que vale meu esforço em estudar sobre o assunto se o tal “crítico” diz que a obra não está fiel a fonte de inspiração. Fora que tal conceito acaba refletindo em parte do público e obscurecendo a visão sobre o cinema em si, pois vão criando um público que começa a achar “chata” uma crítica com análises técnicas e que procure desenvolver um tema.

Eu escrevo sobre filmes aproximadamente há mais de cincos anos e ao pegar um texto de 2012, por exemplo, e um atual, é inegável e óbvio que evolui. Todavia, jamais poderia sequer supor que sou um grande crítico de cinema, mas continuo sempre estudando sobre a matéria, fazendo cursos e, claro, assistindo o máximo de filmes possíveis (principalmente os ditos “antigos”) para cada vez mais ter referências (lembrando que isso não me isenta de erros que possam surgir, facilmente identificados por alguém mais experiente talvez. E caso aconteça, devo ter humildade pra reconhecer tais falhas e limitações)

Contudo, citarei abaixo alguns itens que acho interessante para alguém que realmente “deseja” se tornar um cinéfilo e diz gostar de cinema. Lembrando que não se trata de um manual de conduta, pois cada um gosta e vê o filme que bem desejar; mas o cinema precisa que seu público o compreenda, assim como o respeite como arte com uma linguagem própria e que permita – como expressão artística – se “aproveitar” do público e vice-versa, do mesmo jeito que o público de uma peça ou musical aproveita mais o espetáculo se entender a estrutura da arte em si. Para mim esses itens deveriam sempre permear as opiniões de quem realmente se diz cinéfilo, pois acabariam indiretamente despertando a discussão sadia.

“O Cinema é, antes de mais nada, uma arte, um espetáculo artístico. É também uma linguagem ética, poética ou musical, com uma sintaxe e um estilo, é uma escrita figurativa, e ainda uma leitura, um meio de comunicar pensamentos, veicular ideias e exprimir sentimentos (…). Fazer um filme é organizar uma série de elementos espetaculares a fim de proporcionar uma visão estética, objetiva, subjetiva ou poética do mundo, com coisas, e não com palavras, numa linguagem que cabe a nós decifrar. O cineasta oferece-nos uma visão pessoal, insólita e mágica do mundo.” (Estética do Cinema, Gerard Betton).

Repetindo: Não é minha intenção criar ou doutrinar alguém sobre seus gostos, mas sim atentar para características que acho importantes para se apreciar melhor o cinema. Assim como não estou dizendo, como crítico, que sou uma maravilha, pois cometo erros e estou em constante processo de aprendizado (ainda me falta uma infinidade de filmes para conhecer). Mas, procuro sempre manter um respeito ao cinema e às pessoas que buscam dentro dos meus textos, um pouco mais de informação sobre a sétima arte para ver um filme com um olhar mais apurado.

> Assistir filmes em preto e branco e os ditos “antigos” de todas as épocas (décadas de 1910, 20, 30, 40, 50, 60…), pois estas obras moldaram o que sabemos sobre cinema hoje. Este item é algo quase impensado em jovens (e até adultos cinéfilos), pois me entristece ouvir das pessoas que “filmes em preto e branco são chatos” como se existisse algo intrínseco na obra com este formato que denunciasse sua qualidade. Portanto, veja o máximo de filmes possíveis.

> Cinema brasileiro não se restringe às comédias de “globochanchadas” com o Paulo Gustavo vestido de mulher ou o Leandro Hassum gritando. Pior, ainda dizem que o cinema brasileiro é ruim (se baseando em obras como estas, realmente “é vero“). Entretanto, nossa diversidade étnica e cultural é refletida no nosso cinema, o problema é que a maioria dos filmes não chega ao grande público devido a pouca diversidade das programações. Portanto, procure um pouco sobre a história do cinema brasileiro e seus clássicos e lançamentos recentes (que não seja somente os citados acima). Você encontrará grandes filmes!

> Procure ler (e ver, claro) sobre os grandes movimentos do cinema (e sua origem em si), como os filmes feitos pelo formalismo russo inspirado pelo construtivismo (Eisenstein), por exemplo, que foram fundamentais para o cinema tornar-se o que é hoje. Assim como a nouvelle vague (François Truffaut, Jean-Luc Godard, Alain Resnais…) e o neorrealismo italiano (Antonioni, Fellini, Vittorio de Sica…) que foram são fundamentais para entender como nasceu a Nova Hollywood na década de 70 de diretores como Coppola, Scorsese, Spielberg, George Lucas, Polanski, Brian De Palma, etc…

> Se realmente gosta de cinema, procure saber um pouco também sobre linguagem cinematográfica – pelo menos o básico. O que é uma montagem, uma fotografia, quais os movimentos de câmera e seus significados, o que são planos e quais existem, o que é uma direção de arte, o que torna um roteiro bom ou ruim etc. Garanto a você, sua experiência ao ver um filme será potencializada na medida em que se aprofundar. Falo por experiência própria!

> Fellini e Sergio Leone, por exemplo, são fundamentais para os mais jovens que acham Tarantino (muito influenciado por Leone) o “maior gênio” que o cinema produziu – não estou dizendo que ele não seja um. Assim, como os fãs de Tim Burton (como também sou) devem procurar saber o que é expressionismo alemão que influenciou obras como “Edward, Mãos de Tesoura“. Ou seja, antes de idolatrar um diretor ou um filme, pesquise sobre o que veio antes e suas influências – e obviamente assista tais filmes. Assim, dependendo da situação, você terá mais referências e conteúdo para criticar um filme ou segmento que se julgue “visionário” como se tivesse descoberto algo novo.

> Respeite atores com idades avançadas, pois os astros e galãs que são idolatrados hoje envelhecerão e suas obras serão seus legados. Infelizmente em Hollywood cada vez mais os papéis para atores mais velhos estão escassos, a ponto de estrelas como Uma Thurman (que sequer chegou aos 50 anos) e Susan Sarandon sempre ratificarem em entrevistas que os papéis na maioria não são tão bons. Isso acarreta também, principalmente nas mulheres, a obrigação de sempre se “manterem jovens” através de cirurgias plásticas (o que normalmente não dá certo como a própria Uma Thurman e Kim Basinger podem comprovar). Como diria Al Pacino: “Envelhecer em Hollywood é um mau negócio“.

> Não existe um juízo de valor que separe um filme “cult” de um “blockbuster”. Todo filme é uma obra de arte, contudo, devemos saber mensurar suas qualidades, defeitos e importância.  Neste caso, o papel do bom crítico de cinema ajuda; então assista o máximo de filmes possíveis e procure analisá-los de acordo com estes critérios!

> Cinema não é somente feito de filmes baseados em super-heróis de quadrinhos. Portanto, assista também filmes de outros gêneros e países. Sua cultura agradece e a discussões na Internet também. Me lembro, por exemplo, que jamais tinha ouvido falar do diretor e vencedor de dois Oscars Asghar Farhadi até o conhecer através do excelente A Separação (2012). Hoje, me tornei fã do diretor e acabei procurando seus outros filmes como os excelentes “A procura de Elly”, “O Passado” e “O Apartamento”. E não foi por causa disso que deixei de ver filmes de super-heróis!

> Evite o máximo possível de informações antes de assistir um filme. A expectativa pode arruinar sua opinião sobre o longa, assim como ficar discutindo e dissecando um trailer é inútil – guarde sua capacidade analítica para durante (em silêncio) e depois do filme. Ademais, me incomoda muito ver sites publicando vídeos com a reação do público (ou deles mesmos) ao verem o novo trailer do novo filme de determinado super-herói ou determinada saga não agrega em nada. Assim, como é decepcionante, ver tantos sites se resumindo as discussões em curiosidades sobre “aguardado” trailer do novo filme do herói de quadrinhos ou fomentando debates sobre a versão de diretor “x” será melhor que do diretor “y” (adoraria que tais sites dedicassem tamanha vontade para discutir , ou pelo menos, para apresentar textos ou críticas que agregassem algum valor cinematográfico)

> Não caia na propaganda destas salas XYZ-MAX super, hiper, mega modernas, como som Max Double Diamonds Stereo. Claro que conforto e qualidade na projeção são importantes (inclusive já tive uma percepção errada da fotografia de um filme devido a péssima projeção). Mas se o filme (diretor) não souber trabalhar os elementos cinematográficos de maneira correta, tais elementos tecnológicos na sala de exibição não servirão para nada, pelo contrário, vai piorar a experiência – e pior, pagando-se caro para se assistir. Imagine assistir um filme do Michael Bay numa salas destas. É uma tortura pura passar mais de duas horas assistindo um filme do diretor com sua característica permeado com trilha sonora ao extremo, cortes rápidos e câmera balançando sem parar.

> Crítica não foi feita para dizer se você está certo ou errado quando diz que gosta ou não de um filme,  e sim para agregar conhecimento cinematográfico ao leitor ao ver um filme. Mas um filme que você gosta, não é necessariamente um bom filme, pois gosto não se discute, qualidade sim. Fuja de críticos que comecem seus vídeos gritando “Faaaaala galerinha, beleeeza” (caso seja um Youtuber com milhões de visualizações e zero de preocupação com a informação que esta passando) e aposte naqueles, que mesmo que você não concorde com a opinião, procuram demonstrar através da linguagem cinematográfica (com exemplos e referências tirados do próprio filme) como chegou àquela opinião de maneira contextualizada – sem gritos ou tratando o espectador como criança.

> Fuja também dos fãs e/ou críticos que dizem que não gostaram de um filme por “não estar fiel a fonte” de inspiração. Cinema é algo completamente diferente de literatura ou quadrinhos. E caso você enverede a escrever críticas sobre filmes (fora o fato de ler bastante sobre o assunto) não aja como um fã cuja discussão mais relevante é “briga” de editoras de HQ ou se a cor da sunga do uniforme do herói é a mesma da saga “tal”. Nestes casos o que deve ser respeitado é a essência do personagem, assim consequentemente o resto virá de maneira natural. Até porque sendo “baseado” (palavras que as pessoas ignoram), o roteiro de um filme deve ser algo completamente novo e não é obrigatório seguir a risca sua fonte de inspiração.

> Caso ache um filme “chato”, “não aconteceu nada” ou “esquisito”… Ponha o cérebro para funcionar e procure antes se perguntar “o que o diretor quis passar com a obra” (não estou dizendo que você é obrigado a gostar dos filmes, ok?). Clássicos como “2001” de Kubrick, “Solaris” de Tarkovsky, os filmes de Antonioni (“A Noite”, “A Aventura” ou “Deserto Vermelho”) ou Bergman (“Sétimo Selo”, “Morangos Silvestres” ou “Sonata de Outono”), assim como os mais recentes “O Homem Duplicado” e “A Chegada” de Dennis Villeneuve, por exemplo, possuem grandes discussões sobre o aspecto humano. O diretor e dezenas de profissionais não gastariam seu tempo à toa (apesar de que alguns blockbusters o fazem, mas isso é outro caso) para fazerem tais filmes. Pelo contrário, fazendo obras com uma abordagem “não convencional” e se preocupando em desenvolver seus personagens, mostram total confiança e respeito na capacidade cognitiva do público. Ponha o cérebro para funcionar, pois sua interpretação (baseado em elementos visto no filme) sempre será válida e poderá levar a outros aspectos jamais imaginados em conjunto com outra visões, até porque (devo ratificar) tais filmes estão discutindo aspectos humanos.

> Antes de repetir o velho chavão “Hollywood hoje em dia só faz filme de super-heróis”, se pergunte quantos filmes deste gênero disputaram o Oscar de melhor filme nos últimos anos. Ou seja, o problema não é que o cinema somente produz isso, você que vai pouco ao cinema. Para ter uma ideia, dos últimos 40 filmes no qual publicamos um texto, apenas quatro ou cinco eram baseados em HQs (fora que no ano de 2017 estão programados aproximadamente sete ou oito filmes do gênero, portanto…). A impressão de que somente se faz filme de super-heróis se deve pelas campanhas de marketing e os fãs, que perpetuam as informações na rede.

> Bilheteria não é sinônimo de qualidade. Não estou dizendo que um filme que arrecadou centenas de milhões seja ruim, pelo contrário. Entretanto, usar a receita de um filme como resposta para aquele amigo (ou crítico) que falou mal de seu filme preferido do último mês (e apresentou os motivos para tal) é um erro. Do mesmo modo, filmes com orçamentos menores, em muitos casos, são melhores que aqueles que custam 200, 300 milhões. Lembro que quando mais jovem ficava indignado quando alguns críticos ficam falando mal dos filmes que via (normalmente grandes produções) e ficavam elogiando filmes de diretores que pouco tinha ouvido falar. Eu achava tais profissionais altamente arrogantes, mas hoje, eu me arrependo de não ter descoberto na época (ou pelo menos no início da minha vida adulta) diretores como Antonioni, Fellini, Godard, Bergman, etc…

> Ver um filme na TV jamais substituirá a experiência do cinema. Encare o cinema como algo além de um passatempo, e sim como uma oportunidade de conhecer cada vez mais do mundo ao seu redor (assistindo gêneros e estilos diversos) num local pensando para exibir um filme, e claro, desfrutar de uma obra de arte (boa ou ruim) dentro de um local no qual, repetindo, foi pensado para exibi-lo (tanto fisicamente quanto psicologicamente). Inclusive, publicamos um artigo sobre o assunto (leia aqui). E lembrando: dublado, se possível, jamais!

> Sei que pode parece redundante, mas em hipótese alguma usem celulares dentro do cinema e não fiquem cochichando como se ninguém pudesse ouvir. Demonstre respeito pelo filme (mesmo que ele não faça o mesmo) e com as pessoas ao redor.  Fico estarrecido quando um meliante acende o celular como se estivesse na própria sala de casa (chamo a atenção mesmo). Aquilo irrita e tira o espectador mais atento do filme, podendo arruinar a opinião sobre a obra em si. Cinema não é local de convívio social (não no quesito interação), então aguarde o final do filme, pelo menos, para emitir sua opinião e ligar o celular.

> Procure sempre analisar o contexto social e político de um filme, como o diretor trata determinado segmento ou etnia. Assim também como o filme que está assistindo trata suas personagens femininas baseado no teste de Bechdel (se existem pelo menos duas mulheres no filme com nomes, se elas conversam entre si e se o assunto não envolva homens). Como disse o diretor Eric Rohmer: “Todo filme também é um documentário de sua época“. Portanto, numa era de luta pela inclusão cada vez maior de minorias dentro do cinema – e que este grupo possa se ver nas telas (mesmo que tardio) –  acaba tornado o cinema numa reflexo da sociedade. Assim, é triste ler comentários negativos de um filme porque a obra propõe discutir tais elementos ou realizar algum tipo de empoderamento como se isso não fosse inerente ao cinema (seja social, racial ou sexual). O Cinema, assim como as outras expressões artísticas, não são apolíticas!

> A identificação com um personagem ou filme passa um pouco distante do que o personagem realmente é, mas sim pelo fato dos conflitos e dramas dele sejam inerentes ao nosso mundo de alguma maneira (os chamados personagens bidimensionais). Assim, seguindo tal conceito, podemos identificar de maneira natural e verdadeira (através de personagens bem desenvolvidos, claro) o que eles estão sentindo, independente do personagem ser um homem, mulher, criança, mocinho ou bandido.  “O Cinema não trata exatamente dos fatos, mas sim a percepção deles”.

> Quando gostar de um filme (mas muito mesmo, a ponto de dizer que é o melhor filme que já viu) pare e pense um pouco antes de espalhar isso. Não estou dizendo, obviamente, sobre o que o público deve gostar ou não, mas em muitos casos é mais falta de referência (o que poderia tornar o filme em si em “um dos melhores” e não “o melhor…”). Lembro-me ter ouvido de amigos, na época de “Gladiador”, que o filme com Russel Crowe foi um dos melhores filmes já vistos por eles. Bem, nada contra o filme, mas a ponto de ser o melhor vai uma distância enorme (neste caso se tivessem visto filmes como “Spartacus”, “A Queda do Império Romano” e “Ben-Hur”, por exemplo, a “disputa” seria mais árdua). Ou seja, as nossas referências eram limitadas.

Bem, estes foram pontos que acho importante para apreciar melhor a sétima arte. Claro que existe outros infindáveis e inúmeros pontos e questões técnicas que abrangem cada parágrafo acima, mas espero que possa ter ajudado um pouco na discussão sobre aquilo que tantos amamos.

 
 * Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

Texto e imagens reproduzidos do site: maxiverso.com.br

Os rótulos, os cinéfilos e os que gostam de filmes

 Stanley Kubrick



Os rótulos, os cinéfilos e os que gostam de filmes 

Por Marcelo Müller

Rótulos foram feitos para que os usássemos. Como os das mercadorias, eles servem para promover a identificação dos indivíduos, para agrupá-los, facilitando assim nossa percepção. Não raro, possuem também lado pejorativo, aspecto de “parede” que prende sujeitos ou grupos em delimitação exígua, geralmente sem muita margem para pormenorizações ou análises singulares. Todos ganham rótulos e os distribuem com a mesma necessidade e, por mais que tenhamos noção que eles engessam e apequenam nossa percepção, são elementos inerentes a qualquer configuração social. Temos os nerds, os esportistas, os baladeiros, as vadias, as santas, etc.

A cinefilia também impõe um rótulo, mas, na busca de um entendimento maior da significância desta ordenação, tentemos entender com mais clareza quais são suas facetas. O que é ser cinéfilo? Quem assiste a muitos filmes, diriam uns. Os que não saem das salas de cinema, diriam outros. Os assinantes de uma revista da área, que conhecem de cor e salteado os nomes de atores e técnicos, profeririam outros tantos. São definições muito particulares, que variam, principalmente, de acordo com o grau de envolvimento que o dito “cinéfilo” tem com a arte cinematográfica. A mim, definir a genuína cinefilia passa pela diferenciação entre os que gostam de filmes e os que gostam de cinema.

Gostar de filmes abarca um monte de coisas, desde a frequência com que se vai ao cinema, com que se assiste filmes em casa, apego a gêneros e a certos tipos de narrativa, entre outros. Para quem gosta de filmes, a audiência comumente é uma atividade de entretenimento, e os filmes são como interlúdios, ou programas cativos de fim de semana. Gostar de cinema é bem diferente, e é aí que encaixo o conceito de cinefilia. O apreciador de cinema é alguém preocupado não somente com a construção fabular do filme, mas também com a gramática cinematográfica, com a forma da condução narrativa. Além disso é alguém que vê no cinema sua vocação artística e transformadora, que passeia livremente pelos gêneros e com curiosidade pela produção global. Gostar de cinema é enxergá-lo como arte, estudar seus movimentos e variações estéticas. Ser cinéfilo é gostar de cinema, não apenas de filmes.

Como dito no início, os rótulos criam guetos e embaçam nossa visão para particularidades, para o que se instaura fora do senso comum. A cinefilia é uma prática que vem embalada num rótulo, como qualquer outra, e cabe a quem goste, seja de filmes ou de cinema, adotar ou não a nomenclatura para definir sua paixão particular. Considero-me cinéfilo por me encaixar na categoria dos que gostam de cinema e, como dito acima, em minha opinião, uma coisa está estritamente ligada à outra. Não que os pipoqueiros inveterados ou fãs de filmes que não se propõem aprofundar nos meandros da arte cinematográfica sejam impossibilitados de utilizar a alcunha, afinal, repito, todo este processo de classificação é muito subjetivo, mas sempre é bom refletir sobre classificações e diferenças pontuais. Esta atenção ao que difere os membros de um mesmo grupo é fundamental. Caso tenhamos a dita clareza, os títulos serão benéficos, ao passo que se rotularmos arbitrariamente sem ponderação, os mesmos serão apenas invólucros descartáveis e sem muita utilidade, que nunca darão conta da complexidade do conteúdo que embalam.

Texto e imagens reproduzidos do site: papodecinema.com.br

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O glamour do cinema de rua...

Almiro Pereira, conhecido como Bilo, foi projetista do Auto Cine
Foto: Rafaela Martins / Agencia RBS

Cinerama resgata o charme dos cinemas de rua em Balneário Camboriú

Festival que reúne filme de diversos países...

Por Dagmara Spautz

O burburinho dos cinéfilos em frente ao Cine Itália resgatou, nos últimos dias, a aura dos antigos cinemas de rua em Balneário Camboriú. Durante o festival Cinerama.BC, que termina neste domingo, o espaço de 700 lugares - remanescente da sétima arte na Avenida Central, uma das principais vias de Balneário Camboriú - voltou a receber o público e a se encher com o barulho dos projetores. Uma saudosa lembrança para quem viveu os tempos áureos do cinema, quando as sessões eram mais do que diversão.

- O cinema de rua tinha glamour. Todo mundo colocava a melhor roupa, era um acontecimento social - diz Fernando Delatorre, administrador do Cine Itália e filho de Eduardo Delatorre, pioneiro das salas de cinema na cidade.

Contador por formação, Eduardo encontrou na sétima arte sua maior paixão. Tanto que fez apenas duas grandes viagens na vida: uma para conhecer os estúdios de Hollywood, nos Estados Unidos, e outra para a Europa, para passear pelos locais onde foram filmados os grandes clássicos do faroeste.

Em 1967, três anos após a emancipação de Balneário, Eduardo inaugurou o primeiro cinema do município - o Cinerama, em plena Avenida Brasil. Dotada de alta tecnologia para a época, com capacidade para transmitir películas em 70 milímetros, a sala era ponto de encontro para políticos de todo o Estado e também para beldades como Vera Fischer, que frequentava o Cinerama aos fins de semana. Foi ali, também, que Balneário recebeu a primeira visita oficial de um presidente, João Batista Figueiredo.

Empolgado com o sucesso, Eduardo construiria ainda dois outros cinemas em Balneário, o Cine Itália, aberto em 1984, e o Auto Cine, de 1973 -  um dos únicos cinemas drive-in do país, na Avenida do Estado.

Decadência

Os negócios foram bem até que a popularização das TVs e dos aparelhos de videocassete, além da chegada das primeiras salas de cinema aos shoppings, passaram a inviabilizar os cinemas de rua. Em Balneário, o primeiro a fechar foi o Cinerama, por falta de público. O prédio deu lugar a um centro de compras, que mantém o nome do antigo cinema.

Três anos depois, o Auto Cine transmitiu sua última sessão. Sobrou apenas a gigantesca tela, que tinha a altura de um prédio de seis andares e acabou demolida no ano passado.

O Cine Itália permaneceu aberto em homenagem a Eduardo Delatorre, que morreu em 2003. Hoje, funciona a maior parte do tempo como centro de eventos. Mesmo sem esperanças de ver o cinema de rua funcionando outra vez, devido à chegada de novas mídias para transmissão da sétima arte, vez ou outra Fernando faz uma sessão exclusiva, para matar a saudade.

- Como os equipamentos não podem ficar parados, reunimos de vez em quando alguns amigos e exibimos filmes, como Cinema Paradiso. Acho que a ideia de trazer o Cinerama.BC para o Cine Itália foi uma iniciativa feliz porque é uma forma de resgate disso tudo. Quando se assiste a um filme no cinema, a emoção é outra.

Museu

Para eternizar as memórias do cinema em Balneário, Fernando Delatorre pretende inaugurar, em 2014, um Museu da Imagem e do Som. O prédio, na Rua 700, está sendo construído com recursos do empresário, e vai abrigar as cerca de 400 peças que ele mantém - entre projetores de cinema, câmeras fotográficas e equipamentos de som.

Delatorre revela pelo menos uma das surpresas que o museu trará ao público: uma réplica do carro protagonista de Se Meu Fusca Falasse, de 1968. O carro está pronto, aguardando a abertura do museu.

"Tinha esperança de que ia voltar"

Aos 70 anos, Almiro Pereira, o Bilo, lembra como se fosse hoje a última sessão do Auto Cine, em Balneário Camboriú. Era ela quem cuidava das máquinas e projetava na tela os filmes, que embalaram moradores e turistas por mais de 20 anos. Naquele sábado à noite, em 1998, Bilo foi tomado pela tristeza. Durante meses, continuou voltando para trocar o óleo das máquinas de projeção - até que se convenceu de que era o fim.

- Minha esperança era que voltasse a funcionar - diz.

A história dele com o cinema começou na adolescência, quando trabalhou na distribuição de cartazes do Cine Rio Sul, em Rio do Sul. Um dia, pediu para ver de onde saíam as imagens que apareciam na tela e começou a aprender a projeção.

Bilo chegou a Balneário em 1978, quando começou a trabalhar no Auto Cine. Após o fechamento, ajudou nas projeções do Cine Itália, temporariamente, e trabalhou como motorista para Eduardo Delatorre, pioneiro das salas de cinema em Balneário, por mais 10 anos.

- Ainda vou no cinema às vezes, mas não é mais a mesma coisa.

Texto e imagem reproduzidos do site: osoldiario.clicrbs.com.br

Balneário Camboriú ganha Museu da Imagem e do Som







Publicado originalmente no site Lithoral News, em 13/07/2018

Balneário Camboriú ganha Museu da Imagem e do Som 

Com um acervo de aproximadamente 2.800 peças, museu começou a ser idealizado há quase 40 anos pelo empresário Fernando Delatorre

Projetores, lanternas mágicas, máquinas fotográficas, filmadoras, rádios, gramofones, vitrolas, televisores e muito mais. Uma novidade muito especial vai surpreender quem é apaixonado pela história do cinema, da fotografia e da música em Santa Catarina. Balneário Camboriú abre em 20 de julho, dia do aniversário de 54 anos da cidade, o Museu da Imagem e do Som (MIS-BC).

Instalado em uma área 1.364 metros quadrados, dividida em um prédio de seis andares especialmente construído para abrigá-lo bem no centro da cidade, o MIS-BC oportuniza um contato direto com as artes. O novo museu irá contar para moradores, turistas e estudantes o desenvolvimento da história da imagem e do som desde o século 19 ao redor do mundo.

O equipamento cultural mostra ainda aspectos curiosos do desenvolvimento da indústria do segmento. Entre as peças que fazem parte do acervo estão, por exemplo, os projetores que fizeram parte dos Cinerama, Autocine e Cine Itália – primeiros cinemas de Balneário Camboriú no século 20 –, um gramofone fabricado em 1890 em Londres (Inglaterra) e ainda um filme original de 9,5 milímetros de Charles Chaplin datado de 1917. No último andar do MIS, uma seção especial dedica-se a contar parte da história do mercado financeiro brasileiro e internacional através de cédulas e moedas de diferentes países.

Administrado pelo Instituto Delatorre, sob o comando do empresário Fernando Delatorre, o MIS-BC resgata a história da imagem e do som em seus mais variados aspectos. “Buscamos implantar uma proposta museográfica moderna, segmentada em áreas temáticas, que inclui também a filatelia e numismática, permitindo realizar uma viagem no tempo”, destaca Delatorre.

Instituto Delatorre

Criado em 12 de dezembro de 2012, o Instituto Delatorre tem o objetivo de oferecer espaços com a proposta de promover a educação através da cultura, preservando equipamentos da imagem e do som e garantindo benefícios para as futuras gerações. Com um acervo de aproximadamente 2.800 peças, o Museu da Imagem e do Som começou a ser idealizado nos anos 80 do século passado durante uma viagem de Delatorre à Europa, época em que o empresário visitou museus da França, Itália, Espanha, Portugal e Holanda. Até a concretização do MIS-BC, foram quase 40 anos coletando peças para o acervo e aprimorando conhecimentos sobre museologia em países como Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Estados Unidos e também na Europa.

Além da área de exposição permanente, a estrutura do museu conta com um auditório com capacidade para 50 pessoas, espaço para exposições itinerantes e apresentação de filmes através de projetores antigos de 8 milímetros, super 8, 16 e 35 milímetros. O museu tem ainda estacionamento privativo coberto, cafeteria aberta ao público, biblioteca, espaço para cursos e oficinas e loja de souvenirs.

O Museu da Imagem e do Som de Balneário Camboriú (MIS-BC) será aberto ao público de terça-feira a domingo, das 13h às 18h. O espaço também será aberto a visitas escolares e de grupos, que devem ser agendadas através do telefone (47) 3363-5786.

A cidade do cinema

A trajetória da história do cinema em Balneário Camboriú está diretamente ligada à família Delatorre. Primeiro grande empreendedor de entretenimento do município, Eduardo Delatorre, pai de Fernando e patriarca da família, inaugurou três cinemas na cidade entre 1965 e 1984, sendo os maiores de Santa Catarina. Foi neste ambiente mágico do cinema que Fernando Dellatorre foi criado e onde exerceu diferentes funções dentro do cinema.

Quando inaugurado, o Cinerama de Balneário Camboriú possuía capacidade para 1,2 mil pessoas em uma cidade que, na época, tinha 10 mil habitantes. Ou seja, o cinema tinha capacidade de acomodar pouco mais de 10% da população local de uma só vez.

Situado ao lado do MIS-BC, o Cine Itália é um dos únicos cinemas de Santa Catarina que ainda projeta filmes em 35 mm em tela gigante, com poltronas e todas as características originais de quando foi inaugurado, em 1984. Fernando Delatorre pretende voltar a fazer exibições de filmes clássicos na sala de cinema, como parte integrante da experiência de contar a história da sétima arte.

Museu da Imagem e do Som de Balneário Camboriú (MIS-SC)
Endereço: Rua 700, 44, Centro, Balneário Camboriú
Horário de visitação: terça a domingo, das 13h às 18h
Valor: R$ 20 e R$ 10 (meia)
Agendamentos para grupos: (47) 3363-5786
Divulgação: Luciana Zonta

Texto e imagens reproduzidos do site: lithoralnews.com.br