A reportagem é de Luiz Zanin Oricchio, publicada por O
Estado de S. Paulo, 24-01-2018.
Ennio Morricone e seu estilo pessoal a serviço da sétima
arte
Compositores de trilhas sonoras para cinema existem aos
montes. De quantos se pode dizer que têm estilo tão marcante que se tornaram
coautores dos filmes para os quais fazem a música? De poucos: Nino Rota,
Bernard Hermann e, claro, mestre Ennio Morricone, que ganha retrospectiva no
CCBB pelos seus 90 anos que serão completados em novembro.
Pois desde já se festeja o grande Ennio. Para o autor de
cerca de 500 trilhas sonoras, o curador Rafael Bezerra preparou para o Centro
Cultural Banco do Brasil a mostra Sonora: Ennio Morricone, com 22 filmes
musicados pelo maestro. A retrospectiva acontece de hoje a 19/2 em São Paulo,
antes de migrar para Brasília.
Os filmes apresentados (alguns em cópia 35 mm) trazem a
marca registrada de Morricone. Sem ela, como Sergio Leone teria encontrado o
tom operístico para seus mais famosos faroestes spaghetti? Estão na mostra,
para comprovar, títulos como Por Um Punhado de Dólares, Por Uns Dólares a Mais
e Três Homens em Conflito. Além de Joe, o Pistoleiro Implacável, que Ennio
musicou para outro craque do spaghetti western, Sergio Cobucci.
A mostra explora a diversidade de filmes para os quais Ennio
Morricone foi convidado e assinou a trilha. Se sua marca ficou vinculada aos
grandiloquentes faroestes italianos, também serviu a um trabalho realista e de
tom documental como A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, sobre a Guerra da
Independência da Argélia, baseada nas memórias de um dos integrantes da
guerrilha. A música é tensa, própria para um thriller político baseado em fatos
reais.
Várias vezes Morricone foi convidado pelo cinema político
italiano, como por exemplo em Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer
Suspeita, de Elio Petri, um dos virtuoses do gênero. O tema musical acompanha a
trajetória do chefe de polícia vivido por Gian Maria Volonté, com fama de
incorruptível, e que se julga acima da lei. Aliás, ele se acha a própria lei:
“A repressão é a nossa vacina”, diz num trecho famoso e sempre atual para a
compreensão de um tipo de mentalidade que o tempo apenas reforça.
Aspectos da saga da colonização da América, mostrada por
Rolland Joffé encontra na música de Morricone a vestimenta ideal, assim como a
de outra saga, a dos revolucionários de Bernardo Bertolucci em Novecento,
através das histórias paralelas de dois personagens, o filho de um camponês e o
de um fazendeiro, que se atiram às lutas do século, entre o fascismo e o
comunismo.
Morricone fez música em filme de terror para o mestre John
Carpenter em O Enigma do Outro Mundo. Trabalhou com Terrence Malick no mítico
Cinzas no Paraíso e com Samuel Fuller em Cão Branco, filme de 1982 e ainda
poderoso em sua crítica ao racismo. Outra de suas trilhas muito lembradas é a
de Os Intocáveis, de Brian de Palma, com a história de Elliot Ness e sua luta
contra os gângsteres na época da Lei Seca.
Mas se for feita a eleição da música de filme mais famosa de
Morricone talvez ganhe de lavada a de Cinema Paradiso, tido por muitos como a
mais tocante homenagem à sétima arte. A amizade entre o garoto Totò e o
projecionista Alfredo (Philippe Noiret) ficará para sempre na memória, assim
como a música que se ouve nesse encontro de imaginários, o da infância perdida
e o da descoberta da magia do cinema.
Desde quando foi convidado para fazer a sua primeira trilha
para Luciano Salce, em 1961, em El Federale, até a recente, em Os Oito Odiados
(2015), de Quentin Tarantino, Morricone vem imprimindo sua marca, que consegue
se diversificar segundo as exigências da obra, mas conserva seu estilo
inimitável. O curador Rafael Bezerra assim o define: “É incrível como Morricone
tem uma das assinaturas mais inconfundíveis da história do cinema”. Destaca “a
força visual, a carga afetiva, ideias simples em arranjos complexos,
instrumentação incomum, sons concretos, uso de voz humana como parte da
orquestra, longos silêncios, gags musicais e notas únicas sustentadas por um
bom tempo”.
Com esse talento todo reunido, Morricone tornou-se, se não
um caso único, pelo menos muito raro entre seus colegas: um músico que não
apenas domina sua arte, mas compreende perfeitamente a linguagem do cinema e
sua especificidade. É funcional porque composta tendo em vista o tipo de
narrativa que vai para a tela. Mas é de tão boa qualidade que pode ser ouvida
de maneira independente, como grande música acima de tudo.
Texto e imagem reproduzidos do site: ihu.unisinos.br
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