sábado, 22 de novembro de 2008

Matinée dos Anos 60



Na década de 60, uma apresentação da logomarca de uma distribuidora de filmes, fazia grande sucesso junto a gurizada e a alguns marmanjos, quando da exibição nos cinemas da época. Era a vinheta da CONDOR FILMES, que aparecia antes de qualquer película distribuída pela mesma. Quando isso acontecia, grande parte da platéia entoava em coro xô, xô, xô, xô, como se estivessem a espantar o pássaro (que obviamente era um condor), cuja imagem projetada na tela aparecia pousado em uma rocha e logo alçando vôo, fazendo uma curva no ar e desmanchando-se, graficamente, no céu, acabando por se transformar automaticamente na palavra “apresenta”, e finalmente, formando na tela um fotograma com a frase CONDOR FILMES apresenta. Vivíamos o período da ditadura com grandes restrições à liberdade de expressão, fazendo com que alguns intelectuais da época dissessem que a única manifestação livre de contestação do povo brasileiro era dentro do cinema, na hora da vinheta da Condor. Hoje esta vinheta desperta saudades e muitas lembranças como: a do primeiro flerte com o olhar rápido e tímido para a bela moreninha sentada logo ali na fila de trás; o cheiro de perfume Lancaster; a primeira vez que ao entrar na sala de exibição encontrou um lugar reservado ao lado da garota paquerada que fazia disparar o coração (a senha em resposta ao diálogo mantido pela manhã via telefone); a primeira vez que pegou na mão da amada e o primeiro beijo roubado no escurinho do cinema; os primeiros cigarros Continental, Hollywood ou Minister, fumados escondido dos pais; a época em que a criançada trazia para o cinema um monte de revistas nos braços, todas já lidas para trocar por outras (lembro de uma que trazia as fotos em seqüência de filmes de faroestes, dos gibis de aventura, que começavam a ser negociados desde a porta do cinema continuando lá dentro até a hora do início da sessão); a mudança de lugar por motivo de um adulto ter sentado à frente ou um casal de namorados que não estava nem um pouco interessado no filme, empatando quem estava atrás de ver a tela, o que piorava ainda mais a situação quando se tratava de filme em cinemascope; do baleiro - para cima e para baixo - com sua cestinha de palha com chocolates Sonhos de Valsa e Diamante Negro, balas de hortelã , Drops Dulcora e Chicletes Adams, que depois de mascados eram colados de baixo dos braços ou assentos das cadeiras (na sua maioria de madeiras, tanto no encosto quanto no assento, eram arriadas com força pelos anarquistas para provocar o bate/volta fazendo grande barulho principalmente quando o filme já estava sendo exibido); a Carteira de Estudante com idade aumentada para poder ver filmes impróprios, o que causava grande emoção, principalmente quando, no início do filme, aparecia o Certificado de Censura que era obrigatório na época e lá o carimbo estampado com os dizeres: “impróprio para menores de 18 anos”. Começava o fechamento das dezenas de portas, acendiam-se as luzes da sala. Eram os últimos preparativos para o início da sessão da tarde - a matinée – uma correria para sentar-se e, por fim, o silêncio. O calor era insuportável, alguns garotos mais desinibidos tiravam as camisas e gritavam, assobiavam batendo palmas e pés, torcendo pelo mocinho, que em disparada, corria com seu belo cavalo levantando poeira, para, entre tiros, muitos tiros, sopapos chutes e safanões, salvar a mocinha que se encontrava em apuros nas mãos dos malvados, sujos, feios, barbudos e mal encarados, bandidos ou ferozes e selvagens índios apaches com seus cavalos brancos com grandes manchas pretas e seus arcos e flechas que o vento providencial do diretor desviava do mocinho e da mocinha. Hoje tudo mudou no cinema. Não se namora mais na matinée e sim em motel; não se troca mais revista e sim números de celular, e-mails; bala, só se for perdida; hoje lá se vai para comer pipoca; não se torce mais pelo mocinho, e sim pelo bandido, pois este é mais esperto e sabe ganhar mais dinheiro; o barulho no cinema não mais é provocado pelos ventiladores e pelos grilos e sim do mastigar e mexer no saco da pipoca, além dos toques dos celulares que tem para todo gosto (gritinhos, miados e por aí vai), juntamente com muitas conversas fiadas numa falta de educação e respeito; muitos pensam que estão na sala de sua casa e colocam os pés na poltrona da frente. Os bons tempos não voltam mais, quando o silêncio imperava nas salas de exibição, junto com aquele ar de glamour dos cinemas de rua que aos poucos foram se transformando em Igrejas Evangélicas, estacionamentos, quando não implodidos, fazendo com que restasse somente a poeira e em alguns casos a fotografia, em outros nem isso. A modernidade e o progresso têm dessas coisas e ainda nos deixa o esteriótipo de saudosistas, mas, o que somos mesmo é incorrigíveis românticos.

Armando Maynard

12 comentários:

Daniel Savio disse...

Hum, mais um post interessante Armando.

Mais quem sabe a magia do cinema não migre para uma outra forma?

Talvez migre numa seção particular entre amigos; e qual seria a sua opinião de onde iria parar a magia do cinema?

Fica com Deus, menino Armando.
Um abraço.

lpzinho disse...

Olá Armando!
Primeiro de tudo, ao ler seu post me lembrei de tantas coisas eheheh... lembrei que morei na Mooca em SP qdo era criança e naquela antiga sampa havia tanta coisa legal para ser vivida e para ser hoje lembrada!
E teu post me fez viajar em mtas coisas! Lembro de cinemas que viraram garagens, templos, prédios de aptos... lembro de brasilias verde-mantiqueira, rebaixadas e com lanternas de pisca brancas na frente, amarelas e vermelhas tipo exportação na traseira.
Lembro enfim... de cheiros, pessoas, fatos...
E de matinées no cine Metro no centro velho da capital!
Bom demais ter lido teu post!!!
Parabéns novamente pelo blog1
Vou te linkar enfim!
Desculpe a ausência destes dias!
Abraços e sucesso!

lpzinho disse...

Olá Armando!!

Passando por aqui para deixar um abraço e desejar dias de paz e felicidade!!
Abraço e td de melhor por ai!! =)

Magui disse...

Uau, bons tempos aqueles.Eu também lembro do Condor com saudade, bem como a música que tocava antes de começar qd chegávamos ao cinema.

Lua Oliva disse...

Sr. Armando!
Que surpresa o seu comentário... Adorei!

Aqui fica a minha admiração pela sua escrita, e, conseqüentemente pelo blog cheio de informações sobre o cinema (do qual tb sou fã de carteirinha).

Enfim, obrigada pela visita e seja sempre muito bem-vindo!

Bjs,

Luana

JOCENDIR CAMARGO disse...

É sempre compensador navegar em seu espaço, nos tráz de volta tantas e tantas sessões matinês de prazeres vivídos outrôra e que a saudades sempre os carrega de volta à nossas mentes... muito obrigado por tanta beleza...
um abraço ...

Cadinho RoCo disse...

Sou desse tempo aí. E a publicação retrata bem como é que aconteciam as sessões de cinema. Tinha esta apresentação da Condor e o leão da Metro, que ainda hoje penso ser usado.
Cadinho RoCo

lpzinho disse...

Oi Armando!
Estou bastante feliz e agradeecido pelas tuas visitas e comentários no meu blog!
Quero poder sempre manter contato e ler o seu tb, pq tem conteúdo pra lá de precioso e bem argumentado!
Grande abraço e felicidades!

Ana R. disse...

É nessas horas que fico feliz por ser quase uma cinquentona....Tive a oportunidade de viver muitas dessas emoções, inclusive com o leão da Metro....:)
Tinha aquela caixinha de balas com frutas, não lembro o nome. Hoje é o Mentos de frutas....Saudades do Rian....Saudades, saudades....Somos mesmo românticos incuráveis...:)
Bom fim de semana!

Marco disse...

EITA! Que eu adorei esse post! Inclusive, se o amigo me permite, vou pegar emprestado as imagens da Condor Filmes (já falaei tanto dela no Antigas Ternuras, mas não tinha imagem para ilustrar).
Maravilha! Fiquei emocionado! Sou desse tempo! Parabéns e obrigado por me fazer rever esta minha antiga ternura. Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Gabriela Angeli disse...

Gostei! = )

Marlene Alves Calumby disse...

Fico fascinada a cada vez que retorno ao blog,quanta lembrança bonita,um tempo mágico,puro,relatado pelo Mestre Armando!!!