quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Confraria do 16mm.


Na década de 60 eu, Luiz Edmundo e Eduardo (já falecido), tínhamos cada, um projetor de filmes 16mm., mania dos três. O meu era um Movicor que meu pai trouxe do Rio de Janeiro, quando lá foi fazer uma cirurgia. Trouxe também alguns curtas de Charles Chaplin, o Carlitos. Aqui em Aracaju comprávamos filmes em uma distribuidora de 16 mm., que ficava no primeiro andar de um prédio em frente aos Correios, na Rua Laranjeiras. Os filmes eram vendidos porque os Certificados de Censura, imprescindíveis para que eles pudessem ser exibidos publicamente com legalidade, encontravam-se vencidos, e se assim fossem devolvidos, as fitas seriam incineradas ou picotadas, transformando-se muitas vezes em vassouras. Nessa época, era grande a movimentação na distribuidora. O comércio de aluguel de filmes era intenso, pois haviam diversos cinemas de 16mm. espalhados pelo interior do Estado de Sergipe, muitos deles fixos, em prédios próprios, como também os mambembes, em que projecionistas saíam exibindo filmes em cidades e pequenos povoados. A chegada do cinema nas cidades, era recepcionada com grande alegria pela população. Isto nos faz lembrar o filme Bye, Bye Brasil (1979) de Cacá Diegues. A sala da distribuidora era toda decorada com diversos cartazes e, dentro dela, um funcionário passava todo o tempo a tirar filme das maletas e latas, para revisar, numa enroladeira manual, fazendo emendas onde a fita estivesse com os picotes estragados. Só a visita a este ambiente era um grande prazer e, geralmente, saía de lá com um pacotinho de um cine jornal ou um rolo de um filme qualquer, ansioso para chegar em casa e assistir, pois só assim tomávamos conhecimento do que havíamos comprado, pois na sua grande maioria eram adquiridos incompletos. Na Fazenda Pedras, meu tio - Gonçalo - tinha um cinema e, certa vez, observando, na minha casa, uma tela com cortina que se abria em duas partes ao comando de dois cordões, disse que ia trazer um projetor de verdade para passar um filme ali. Era que o dele, além de poder passar um filme de verdade, com várias partes e completo, era sonoro. Tratava-se de um projetor RCA de 16mm. Daí surgiu a idéia de meu primo Eduardo pedir ao mesmo emprestado o projetor, para que juntamente com Luiz Edmundo, passassem a fazer sessões pagas para a gurizada do bairro, no período das férias escolares, alugando filmes na distribuidora da rua Laranjeiras. E assim, tinha sessão de cinema todas as noites, com cartaz e fotos do filme na porta da casa da avó de Luiz. Lembro do filme King Kong (1933), o qual exibimos mais de 10 vezes. Com o advento da televisão e do vídeo-cassete, logo depois do DVD, da TV de assinatura e, mais recentemente, da internet, o cinema foi perdendo toda a magia da projeção, pois o seu acesso ficou mais fácil e automático. Toda essa modernidade, somada à violência das ruas e o preço dos ingressos, vieram a mudar certos hábitos dos amantes da sétima arte, diminuindo a freqüência às salas de cinema, fazendo com que muitos passassem a assistir a um bom filme no conforto do seu lar. Em conseqüência disso, acabaram-se os cinemas de rua e começaram a surgir as grandes redes, como o Cinemark - pioneira no Brasil, com seus multiplex em shoppings center, com grande número de salas reunidas em um só lugar, dando opções de escolha ao espectador, além das salas premier,com poltronas especiais.O cinema continua sendo a maior diversão e o prazer de uma exibição, numa sala escura, é incomparável, pois até o ritual de preparativos e o deslocamento para ir ao cinema, já cria uma expectativa prazerosa.


O tempo passou e, anos depois, me encontro com Luiz Edmundo no supermercado que me convida para uma exibição de filmes, na tarde de um sábado - 12 de julho de 2008 - no Auditório Lourival Baptista, alugado pelo mesmo, para este evento. Lá, chegando, qual não foi minha surpresa em encontrar amigos da mania de projetar. O técnico Sr. Rocha, hoje com 92 anos, que, pacientemente, muitas vezes consertou nossas máquinas; Raimundo, fotógrafo profissional e também possuidor de projetor em sua cidade Tobias Barreto; e seu Celso, projecionista aposentado do Cine Aracaju, dentre outros. Chamou-me a atenção, a qualidade da projeção e o tamanho da tela num formato perfeito de cinemascope (o Luiz me explicou que a tela do Teatro pertencia ao cinema Vitória, que existia na Rua 24 horas e que, quando do seu fechamento, foi transferida para aquele Teatro). Luiz mantém até hoje o prazer de projetar, possuindo duas máquinas muito bem conservadas, da marca Terta Sound, com qualidade perfeita, de som e imagem, igualzinha a de um cinema de verdade. Conversando com o mesmo durante o intervalo entre um filme e outro, relembramos juntos quando ele ia ao cinema, sentava na sala de projeção e ficava olhando para trás, ouvindo o barulhinho do projetor e vendo aquela luz saindo da lente pelo buraquinho da cabine, fazendo-o ficar curioso para entrar naquela lugar e ver como tudo aquilo funcionava, reportando-nos ao filme Cinema Paradiso (1988) de Giuseppe Tornatore. Na época, éramos o Totó do filme. Tempos depois o Luiz já conhecia todos os projecionistas do centro da cidade, tendo trânsito livre em diversas cabines, como a do Cinema Guarany em seus últimos dias. O mesmo já mexia nos projetores, colocando filme e acionando o dispositivo que fechava o foco do projetor na mudança de parte. Hoje é ele quem conserta os seus projetores, desmonta e monta, sem precisar da ajuda do técnico e amigo seu Rocha. É, o Luiz tem um cinemark em casa. Esse Luiz é um privilegiado, esperando os netos para mostrar essa máquina mágica, que roda dois grandes carretéis de onde sai uma luz de uma lente, fazendo passar numa janelinha, uma fita de celulóide a 24 quadros por segundo, chegando juntamente com o som, a uma grande tela branca (ao redor só escuro), onde tudo pode acontecer. Toda essa engrenagem cada dia será mais rara, pois até o cinema de 35 mm já vem passando por um processo de mudança muito rápido. Daqui a um tempo o mesmo passará a ser digital e via satélite, igualzinho ao Pay Per View da Tv de assinatura, com somente uma diferença - o tamanho da tela - coisa que as fábricas de televisão já estão providenciando rapidamente, além dos já popularizados Home Theater, que era nosso cinema em casa de antigamente.


Ver vídeo que registra o evento e vinheta da Condor Filmes

video
Armando Maynard

12 comentários:

Lay disse...

Armando,

vi lá seu comentário no meu blog. Você também faz um ótimo trabalho por aqui.
É bem verdade que assistir filmes no cinema é bem melhor que assistir em casa. A começar pelo tamanho da tela!

lpzinho disse...

Post bacanérrimo mais uma vez Armando!
É sempre uma viagem acima de tudo encantadora poder ler nas tuas memórias e textos o quanto o cinema sempre foi e será importante.
Sendo sincero, acho mto legal que as coisas evoluam, pq faz parte da trajetória humana buscar crescer e se desenvolver mas confesso que me sinto mal ao ver que o bome velho cinema evoluiu eheheh, quero dizer quando me lembro dos cinemas da minha infância(filmes e salas de exibição), me vêem uma nostalgia danada. E olha q eu nem tenho tanta história assim pra lembrar apesar da idade. Fui mto ao cinema depois dos 25 anos... antes disso era mais esporádico. Depois virei uma espécie de rato de cinema, daqueles que chega a ir TODOS os dias ver um filme diferente por semana!
Bacana tb a história do Luiz Edmundo! Engraçado no entanto é ver que nas mídias a gente sempre vê triunfar assuntos como corrupção, safadeza, futebolices e polit-tica rasteira ao lado de celebridades como mulher-fruta-tal entre tantas, mas das coisas boas, das coisas de conteúdo ou que possam ser culturalmente importantes não, nunca se fala!
Tempos estranhos... daria até pra fazer um filme sobre esta decadência! =)
Abraços e sucesso com o blog!!!

Ps.: E um mto obrigado em especial pelas tuas visitas e comentários!

Daniel Savio disse...

Descdulpa a pergunta elementar Armando, mas você não pensou em realmente montar uma "confrataria do 16 mm"?

Pois pelo vejo que há bastante pessoas na sua cidade, que sabe mantendo uma especie de reunião não garante a paixão na próximas gerações...

Fica com Deus, Armando.
Um abraço.

lpzinho disse...

Olá Armando, td bem?
Passei hj para deixar um abraço e desejar td de melhor!!

Deus te proteja e sucessos mil! =)

Armando Maynard disse...

Recebí de amigos blogueiros e apaixonados por cinema, os seguinte e-mails:

De André Setaro
(setarosblog.blogspot.com)
Armando,
O vídeo é uma maravilha. E seu blog uma máquina do tempo. Parabéns pelo apuro, pelo resgate de momentos inesquecíveis. Também tive, e acho que postei uma mensagem, um projetor 16mm.
Um grande abraço
André Setaro
A vinheta da Condor faz parte de minha memória cinematográfica. Lembro-me que o pessoal fazia um chiado como se estivesse a espantar a ave. Antes da selvageria que tomou conta atualmente das salas.(A.S.)

J. Pedroso
(tvpiratinicanal5rs.blogspot.com)
Parabéns pela reportagem, muito bacana...grande abraço meu amigo.

Antonio Ricardo Soriano
(salasdecinemadesp.blogspot.com)
Olá Armando
Adorei suas novas postagens. São bem nostálgicas.Que delícia reunir amigos e reviver velhas e boas experiências. Adoraria estar presente nestes encontros. Um dos colaboradores do meu blog, o Atílio, também adoraria estar presente.Inclusive ele tem uma oficina que conserta projetores.Escreva para ele.Um grande abraço.

Atílio Santarelli
(atiliosantarelli.fotoblog.uol.com.br) no you tube na busca coloque: atilio santarelli
Oi Armando
Que prazer e emoção em visitar o seu Blog!! eu tenho a vinheta da condor em 35mm. Sou um apaixonado e diria até que doente por projetores, cabines máquinas 35mm... passei a minha infância dentro de cinemas e cabines! graças a Deus!!visite o meu foto blog e entre no you tube lá vc vai poder conhecer o meu cantinho rsrsrsrs. Grande abraço, Atílio Santarelli

Tania Celidonio disse...

Armando, obrigadíssima pela visita ao meu blog. E adorei saber que o seu blog é totalmente dedicado ao cinema. Uauuuuuuuuuu....aqui no seu blog a gente pode ficar horas estudando um pouco da história do nosso cinema. Como cinéfila só posso agradecer. Um grande abraço!

Armando Maynard disse...

Recebí de Rodrigo Vidal(www.vinilblog.com) o seguinte e-mail:
Olá Armando, seu blog está fantástico!(...)
Um abraço,
Rodrigo

Daniel Savio disse...

E a o presente de natal para gente que te acompanha, será que não rola uma história de natal que envolva filmes?

Fiquem com Deus, Armando e Lygia.
Um abraço.

Daniel Savio disse...

De certa forma, um pequeno presente pelo o seu esforço nos introduzir nesta grande paixão que o cinema.

Está nuam postagem do dia 19-12-2008.

Fica com Deus, menino Armando.
Um abraço.

Armando Maynard disse...

Recebí o e-mail do crítico de cinema Fernando Zamith
[www.jovempan.uol.com.br/cinema]

"Armando, (...) Vi as imagens do Condor. Aguarde que vamos preparar algo sobre o vídeo. Acho que faz uns 30 anos que vi pela última vez na tela o condor abrindo as asas e rasgando a tela para aplauso, ovação e assobios nossos. Espantar um condor não tem preço. Rever a imagem foi um privilégio. Muito obrigado, Fernando Zamith

Guilherme disse...

Pai, me sinto orgulhoso por ver um trabalho magnífico ser concluído com louvor. Assim foi essa postagem. Embora more longe, tive a oportunidade de acompanhar sua dedicação a essa postagem em especial e ao seu blog. Sou um grande admirador da sua paixão por cinema e gostaria de registrar para seus leitores que me sinto privilegiado por ter acompanhado essa mania durante toda minha criação.
Às vezes me pego "murmurando" algumas das mais famosas trilhas sonoras que o cinema já viu graças às incansáveis vezes que o senhor tocava os discos de vinil.
Lendo o blog podemos, não só viajar nas histórias contadas com a propriedade que só quem é um eterno apaixonado por essa arte pode contar, mas também notar a generosidade com que você dedica ao Eduardo, o reconhecimento àqueles que, como você, amam cinema.
Isso emociona qualquer um (a Elaine - minha esposa - se emocionou). Parabéns pelo texto muito bem redigido e pelo vídeo digno de um OSCAR.

Beijos, Guilherme, Elaine e Yurie.

TV A LENHA disse...

Sensacional o blog....parabéns a todos os envolvidos, também sou um apaixonado por películas de 16mm, e ainda não havia encontrado na web, algo da grandeza desse ítem colecionável! Grande abraço.

SCHMIDT