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segunda-feira, 3 de junho de 2024

Com aumento no preço dos streamings, locadoras voltam à moda...

Publicação compartilhada do site METRÓPOLIS, de 2 de junho de 2024

Com aumento no preço dos streamings, locadoras voltam à moda em SP

São Paulo teve 2,6 mil locadoras de filmes no início dos anos 2000; hoje restam 4 unidades para concorrer com plataformas de streamings

Por Valentina Moreira

São Paulo — “Se eu for assinar todos os serviços de streamings, eu vou gastar muito mais que alugando o filme aqui”, calcula um cliente enquanto entrega os documentos para reativar o seu cadastro na Video Connection, locadora mais antiga da cidade de São Paulo, e uma das últimas quatro que restam na capital paulista.

Ao longo do período de uma hora de um sábado, a loja do edifício Copan, no centro da cidade, é tomada por um vai e vem de pessoas, curiosas com o estabelecimento que mais parece uma fenda temporal, com transporte direto para o início dos anos 2000. O proprietário, Paulo Pereira, de 67 anos, comenta sobre o aumento recente do movimento: “As pessoas não acham os filmes nos streamings e acabam vindo para cá”.

Se engana quem pensa que o público alvo é só de pessoas mais velhas. Pelo contrário, Paulo explica que são justamente os jovens que voltaram a movimentar, mesmo que discretamente, o mercado de aluguel. “Tenho recebido bastante alunos de faculdade que querem saber de filmes que eles não encontram em lugar nenhum”, ele explica.

Além da boa localização, a Video Connection oferece para o aluguel 14 mil DVDs, classificados por diretores, que atraem principalmente o público especializado.

O acervo de milhares se repete pelas outras três locadoras sobreviventes: a Charada Clube, na Vila Tolstoi, zona leste da capital, disputa o posto de maior acervo da cidade, com entre 14 e 15 mil DVDs e de 2 a 3 mil VHS. Em seguida, vêm a Eject Video, na Vila Clementino, e a Horus Vídeo Locadora, Vila da Saúde, ambas na zona sul, com 11 mil filmes cada.

Play Video

Ainda assim, o tamanho não é páreo para o fluxo constante de novas produções nas plataformas digitais diante de pouquíssimos lançamentos gravados em DVDs.

As quatro lojas são os últimos exemplares de um negócio que, no início dos anos 2000, tinha 2,6 mil CNPJs registrados na região metropolitana da cidade.

“Jamais fechar, porque é uma missão”

O valor da diária dos filmes alugados gira em torno de R$10,00, com pequenas variações entre as quatro, e é ajustado conforme o cliente escolhe mais filmes. A mais cara é a Eject Video, que cobra R$16,00 pelo DVD. Na mais barata, a Horus Vídeo Locadora, o valor é de R$8,00 para filmes comuns.

Do lado dos streamings, o plano mais barato é o da Amazon Prime, onde o cliente paga R$ 19,90 mensais para assistir a quantidade que desejar do catálogo. As donas da Horus Videolocadora, Roseli Carvalho e Valdirene Ramos, de 54 e 58 anos, defendem que o aluguel tem vantagem porque a escolha é mais assertiva e não exige que o cliente pague múltiplos serviços.

“Não é uma competição, mas é uma outra proposta. A gente ajuda o cliente a conhecer aquele filme que ele talvez nunca assistiria, ao invés de ficar procurando por horas. A plataforma tem o seu valor, mas a gente sabe que aquela quantidade de opções muitas vezes é uma ilusão. Você procura, procura, e não encontra nada”, diz Valdirene.

Fundada em 2008, a Horus é a loja mais nova do quarteto. Ela surgiu de um sonho das duas amigas que se conheceram no ramo de terapias espirituais e compartilhavam o amor por filmes.

Antes da disputa com as plataformas, as donas contam que sofreram com a competição com a pirataria e enfrentaram dificuldades financeiras para manter o aluguel do imóvel. Apesar disso, elas nunca pensaram em desistir do empreendimento e enxergam com confiança o aumento, nos últimos 2 anos, de clientes entre 15 e 25 anos.

“Jamais fechar, porque é uma missão nossa. Essa locadora é um sonho nosso, independente de qualquer coisa. Assim como os livros ensinam, a gente pensa que os filmes também têm essa função. Eles contam uma história, e levar essas histórias para as pessoas é o propósito da Horus”, diz Roseli.

“Não dou o que a pessoa quer”

Dono da Eject Vídeo, Ricardo Luperi, de 61 anos, é arquiteto e abriu a videolocadora em 1991, época que, segundo ele, “ou as pessoas ou abriam uma pizzaria ou uma locadora”.

Ele conta que, ao contrário do que as pessoas pensam, nas últimas três décadas de funcionamento da locadora só passou por problemas financeiros uma vez, em 1997, quando os DVDs estavam no seu auge. “Eu tive problemas porque alugava bem, mas os filmes em geral eram muito caros. Foi a única vez que eu tive vontade de fechar. Depois, onde todos vão enxergar crise, eu funciono muito bem. E funciono muito bem até hoje, com bastante procura”, conta Ricardo .

A Eject Video explora o diferencial de ter filmes raríssimo e diz que oferece um serviço de curadoria das produções e manter uma relação próxima com os seus clientes: “Aqui é tudo setorizado, separado por diretores, temas como Gastronomia, Psicanálise. E a minha estratégia é não dar o que a pessoa quer, mas fazer ela descobrir um gosto por cinema”, ele explica.

Para Ricardo , o cuidado na escolha e a forma de atendimento ajudam a explicar a curiosidade dos jovens. “Eu tenho percebido um aumento do público jovem reagindo à imposição das linguagens de filmes dos streamings, que, de certa forma, te força a um olhar pouco sensível do cinema, da forma de vida da gente”, ele defende.

O futuro de um negócio do passado

Gilberto Petruche, de 68 anos, comanda a Charada Clube, na Vila Tolstoi, zona leste da cidade. Para ele, o futuro das locadoras ainda é incerto. ”Eu não vejo um renascimento das locadoras no futuro, porque as produtoras foram embora. As que ficaram soltam poucos filmes e, se soltam, são apenas relançamentos. Então, como você vai manter uma coisa viva, quando não existe a coisa básica, que são os filmes?”, pontua ele.

O segredo para a manutenção do empreendimento está na sua associação com outras atividades. No Charada Clube, por exemplo, Gilberto promove eventos culturais, como o Festival Terra em Transe, que há oito anos comemora o aniversário da locadora e movimenta o estabelecimento com colecionadores de filmes e bandas.

A sala onde ficavam os filmes pornô foi reestruturada e agora recebe aulas de canto e instrumentos.

O nome do Charada Clube é uma referência ao personagem do ator Jim Carrey no filme “Batman forever”, de 1995, ano em que Gilberto decidiu abandonar seu cargo de gerente administrativo em uma empresa para abrir a locadora, que “era um negócio pipocava em todos os bairros”.

Com uma loja a 16 km do centro, o proprietário conta que pelo menos todo dia recebe algum jovem curioso com desejo de conhecer a loja e o seu funcionamento, mas o fluxo é tímido. O aluguel dos filmes consegue ajudá-lo com cerca de 5% do arrecadamento da loja e ele acredita que, a longo prazo, as locadoras vão se tornar uma espécie de “museu vivo”, onde o aluguel estaria agregado com outros produtos vintage.

“Eu consegui sobreviver, mas é difícil para caramba, porque é uma sobrevivência. O financeiro fica em segundo plano, a prioridade é se pagar e isso já basta”, diz Gilberto.

Texto e imagem reproduzidos do site: www metropoles com/sao-paulo

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Como sobrevivem as últimas videolocadoras na era do streaming

 No auge, locadoras de vídeo somaram cerca de 4 mil lojas em São Paulo
Foto: Getty Images/BBC

Fotógrafo baiano João Alvarez é amante do cinema e assiste,
 ao lado da mulher, a cinco filmes por semana 
Foto: EVANILDO DA SILVEIRA/BBC

Publicado originalmente no site da revista ÉPOCA NEGÓCIOS, em 15/02/2020 

Como sobrevivem as últimas videolocadoras de São Paulo na era do streaming

Ainda é possível alugar filmes em lojas físicas — especialmente os clássicos e os mais antigos, que de outra forma estariam perdidos para sempre

BBC NEWS BRASIL

O fotógrafo baiano João Alvarez passeava pelo centro de São Paulo há cerca de um ano quando se deparou com uma raridade: uma locadora de filmes, uma das últimas ainda existentes na capital paulista hoje.

Localizada no edifício Copan, projetado por Oscar Niemayer e um dos cartões postais da cidade, a Vídeo Connection é uma prova de que ainda é possível alugar filmes em lojas físicas — especialmente os clássicos e os mais antigos, que de outra forma estariam perdidos para sempre para os amantes do cinema e para as novas gerações. A maioria deles, dizem donos de locadoras e aficionados, não está disponível nos serviços de streaming nem em outras plataformas.

A videolocadora do Copan é uma das poucas sobreviventes entre as mais de 4 mil que já existiram na maior metrópole da América do Sul. Elas persistem e ocupam um nicho específico de mercado, atendendo clientes como Alvarez. "Eu sou um amante do cinema", diz ele. "Meu principal hobby é ver filmes. Eu e minha mulher assistimos a cinco por semana, em média. Acho que não podemos ficar reféns do streaming, pois os melhores filmes de arte e os clássicos não estão ali. Eles só são encontrados nas locadoras."

Para não virar novas "Blockbuster", empresas do setor imobiliário precisam abraçar inovação
A história das locadoras de filmes em São Paulo — e no Brasil — começou no final da década de 1970. A primeira da capital paulista surgiu em 1977. Inaugurada como Disk Filmes, tornou-se, um ano depois, a conhecida Omni Vídeo.

"No mesmo ano e ao mesmo tempo surgiu o primeiro videoclube do país, chamado justamente Vídeo Clube do Brasil'", conta o cineasta Alan Oliveira, autor do documentário CineMagia: A História das Videolocadoras de São Paulo, lançado em 2017.

As lojas ganharam destaque no início da década de 1980, momento em que o videocassete começou a se popularizar no país. As redes 2001, Real Vídeo e Vídeo Norte, por exemplo, surgiram em 1982.

Daí para frente, começou o boom das videolocadoras em São Paulo e em todo o Brasil. "Nós mostramos esse processo no filme, que envolve a transformação do mercado de fitas alternativas (VHS gravadas) para as seladas (originais das distribuidoras), seguindo para a chegada do DVD em 1997", diz Oliveira.

O auge das locadoras se deu exatamente nesse período de mudança de tecnologia, do analógico para o digital. De acordo com o autor de CineMagia, o avanço na qualidade de imagem e som trazido pela chegada do DVD fidelizou clientes de maneira inédita no mercado.

Isso se seguiu até 2006, com a chegada do blu-ray, uma tecnologia ainda mais poderosa que o DVD, mas que não chegou a decolar no país.

Blockbuster poderia ter comprado a Netflix por US$ 50 milhões em 2000, mas achou a empresa cara
Prejudicadas pela popularização dos downloads de filmes e dos DVDs piratas, as locadoras começaram a fechar logo em seguida. A chegada das plataformas de streaming no país, a partir de 2011, só intensificou esse movimento, segundo Oliveira.

"Vendo tudo isso acontecer, senti a necessidade de documentar essa história", revela. "Não o processo de fechamento delas, mas sim a magia que existia (e ainda existe) na experiência de entrar nesses maravilhosos espaços urbanos de cinefilia."

"O documentário 'CineMagia' é uma homenagem a esses 40 anos do mercado de home video, começando em 1976 e seguindo até 2016", conta.

"Mais do que falar sobre 'um suposto fim' [das locadoras], minha ideia sempre esteve voltada para o começo. Sempre tive fascínio em entender como a coisa toda nasceu e se transformou com os avanços da tecnologia ao longo dos anos. Está tudo lá no filme."

Auge

É difícil saber exatamente o número de videolocadoras que existiram nesse período. "O cálculo que fizemos para o filme levou em consideração a listagem de lojas que realizavam compras de filmes (VHS e DVD) das principais distribuidoras do país, no período de dezembro de 1998 a fevereiro de 1999", diz o diretor.

"A cidade de São Paulo tinha cerca de 4.000 listadas e, no país, cerca de 11.500, sendo mais de 900 cadastradas apenas em 1998. Isso dá uma dimensão da velocidade e do crescimento do negócio e das vendas naquele período."

É claro que esse número oscilou muito até 2006, quando a maioria das lojas e algumas distribuidoras começaram a encerrar seus serviços. Nessa mesma época, o Rio de Janeiro tinha cerca de 1.600 estabelecimentos, praticamente a metade do número da capital paulista.

Hoje, a Vídeo Connection é uma das raríssimas videolocadoras de São Paulo que vivem exclusivamente da locação de filmes e da conversão de fitas VHS para DVD.

A história da loja começou em 1985, quando foi inaugurada na rua da Consolação, região central de São Paulo, com 120 títulos em VHS. "Nós pegávamos os filmes na Omni Vídeo, copiávamos e colocávamos para alugar", conta o dono da empresa, Paulo Sérgio Baptista Pereira. "Depois, começamos a trabalhar também com filmes pornôs, para atender os motéis."

Em 1986, a empresa começou a atuar também como revendedora de filmes, adquiridos diretamente nas produtoras. "Fomos a primeira distribuidora do Brasil para outras empresas", diz.

"Passamos a crescer muito e separamos a locadora, que instalamos aqui no Copan. Abrimos novas lojas, muitas delas dentro de grandes empresas, chegando a ter 15 no total. Isso foi até 1995, quando o cenário começou a mudar e o número de estabelecimentos passou a diminuir."

O surgimento do DVD, porém, reverteu esse movimento e gerou nova disparada no número de lojas. O bom momento durou até cerca de 2010, quando começou a pior fase deste mercado. "A pirataria já estava pesada, mas não chegou a comprometer nosso negócio", diz Pereira. "O que atrapalhou mesmo foi o streaming, que chegou com força a partir de 2012. Cheguei até pensar em fechar a loja."

55 cópias de 'Titanic'

Foi em 1995 que Gilberto Donizetti Petruche resolveu realizar o antigo sonho de montar uma videolocadora, no ano. Largou o emprego numa grande empresa, na qual era gerente administrativo, para fundar o Centro Cultural Videolocadora Charada, em Sapopemba, zona leste de São Paulo.

Ele alugou uma sala perto de sua casa e inaugurou a loja, sob o nome provisório de Vídeo Clube Ação, com 294 títulos. "Meu grande objetivo era ser mais do que uma locadora, ou seja, ser um clube", conta Petruche.

"A ideia era exibir filmes, fazer debates, conversar. Mas não deu certo, porque o movimento das locações foi tão grande que a ideia de clube ficou em segundo plano. Não dava tempo de conversar com os clientes. Tivemos que alugar um espaço maior. Atingimos o auge no dia 2 de janeiro de 2000, quando locamos, num único dia, 880 fitas VHS. Nessa época, a média era de 300 filmes por dia. Cheguei a comprar 55 cópias do filme Titanic."

O DVD, que a Charada começou a disponibilizar a partir de 2001, deu sobrevida à loja. A queda começou há cerca de 10 anos, quando o número locações diminuiu para 1.000 por mês.

"De 5 anos para cá, a redução foi ainda maior", diz Petruche. "Hoje, alugamos cerca de 100 fitas por mês. Então, voltamos à ideia inicial e a locadora virou um clube. Vendemos discos de vinil, oferecemos aulas de violão, guitarra, bateria e realizamos shows."

Dez anos mais antiga, a Televideo, localizada no Belenzinho, também na zona leste de São Paulo, e inaugurada em 1985, tem uma história semelhante.

No auge, chegou a alugar 3.000 filmes por mês. "Hoje, nosso movimento é insignificante perto do que já foi", conta o proprietário, Marcelo Martins.

Três sinais de que a tecnologia está prestes a mudar o seu negócio

"Em um final de semana bom, locamos cerca de 25 filmes. Por isso, ao longo dos últimos anos, mudei o foco do meu ramo, passando a ser mais uma loja de conveniência do que uma simples videolocadora. Vendo sorvetes, doces, bolachas, presentes, bebidas, produtos para informática, acesso à internet, impressões de boletos, currículos, fotos. Só continuo comprando os lançamentos ainda pela paixão que tenho pelo cinema."

Sorte de clientes fiéis, como a advogada Christina Fernanda Cobianchi Nobre, que há mais de 10 anos retira filmes semanalmente na Televideo. "Eu gosto de lojas físicas, porque posso ver as opções nas prateleiras, pegar a capa do vídeo e ler o resumo", diz. "Além disso, há títulos que a gente só encontra em locadoras, principalmente antigos, que a geração de hoje não conhece. Não podemos deixar isso morrer."

Para Pereira, as videolocadoras experimentam, atualmente, um pequeno aumento do movimento e do interesse das pessoas. "Quando elas perceberam que nem tudo o que queriam estava disponível no streaming ou na internet, começaram a voltar às lojas", explica.

"Como estou praticamente sozinho no mercado paulistano, meu movimento voltou a crescer a partir do final de 2017 e no início de 2018. No auge, por volta de 1995 e 1996, chegamos a ter 4.000 locações num mês, número que caiu para cerca de 300 ou 400, em 2016. Agora, chegam a 800 mensalmente. Estou sem funcionários, mas até estou pensando em contratar alguém."

Texto e imagens reproduzidos do site: epocanegocios.globo.com

sábado, 15 de junho de 2019

As últimas videolocadoras à moda antiga de São Paulo

Pereira, da Vídeo Connection: “Faço o que faço por paixão”
Reinaldo Canato/Veja SP

Publicado originalmente no site da revista VEJA SÃO PAULO, em 28/04/2017

As últimas videolocadoras à moda antiga de São Paulo

Após a derrocada desse tipo de negócio, alguns estabelecimentos resistem ao tempo e atraem cinéfilos nostálgicos

Por Carolina Giovanelli

Esquadrinhar as prateleiras por meia hora em busca do filme ideal. Descobrir que todas as cópias do último lançamento já foram locadas. Bater um papo com algum funcionário cinéfilo para obter indicações. No caixa, tentar lembrar de cor o número de sua carteirinha. Pagar multa porque não deu para ver tudo no prazo ou, nos tempos do VHS, esqueceu de rebobinar a fita.

Antes tão comuns, as idas à videolocadora tornaram-se programa praticamente do passado. Após o quase desaparecimento desse tipo de negócio, ainda há endereços que resistem ao tempo e fazem a alegria da turma nostálgica.
  
Muitos dos empreendimentos remanescentes, porém, tomam hoje o cinema como coadjuvante. Depois da compra da marca Blockbuster, parte da Lojas Americanas, por exemplo, conta com o serviço, mas de modo acanhado, em meio a um mundaréu de outros produtos.

Entre as poucas videolocadoras à moda antiga por aqui, aparece a Vídeo Connection, instalada no térreo do Edifício Copan, no centro. Muita gente que não costuma frequentar o pedaço passa por lá como se deparasse com uma joia rara. Dia sim e outro também, o sócio Paulo Sérgio Baptista Pereira ouve interjeições de saudade ou espanto — há criança que nem sabe para que serve o lugar.

De seus 60 anos, 32 são dedicados ao imóvel de 50 metros quadrados, distribuídos em três pequenos andares. Nos tempos áureos, na virada dos anos 90 para os 2000, eram locados até 4 000 filmes por mês. Hoje, são aproximadamente 750.

“Faço o que faço por paixão, não para ficar rico”, afirma Pereira, que assiste a pelo menos quatro produções por semana e tem dicas do que ver na ponta da língua. Em um discreto ato de resistência, ele não tem em casa nem TV a cabo nem Netflix, alguns dos pivôs da derrocada do mercado.

Petruche, no Charada: 880 filmes alugados em um só dia nos tempos áureos 
Foto: Ricardo D'Angelo/Veja SP

O empresário chegou a empregar cinco funcionários. Agora, cuidam do espaço somente ele e a filha, a psicóloga Daniela. Faturam por mês cerca de 6 000 reais, ante os mais de 20 000 reais do passado. A clientela é formada principalmente por moradores do complexo e dos arredores. Mas existem interessados que se deslocam de outros bairros apenas para aproveitar a experiência das antigas.

Outra referência no mercado é Gilberto Petruche, de 61 anos. Desde 1995, o paulistano toca o Charada Clube, na região de Sapopemba, na Zona Leste. Trabalha com uma variedade de 17 000 títulos em DVD, Blu-ray e VHS. Assim como a Vídeo Connection, seu negócio costuma dar um prazo mais flexível às devoluções.

A fim de movimentar o espaço, promove há um ano shows de rock de bandas independentes — o próximo será em 13 de maio. Os grupos ocupam a sala de produções pornôs (hoje, “escondidas” em pastas) e reúnem até 200 pessoas durante o dia. As vendas de discos de vinil e de parte do acervo de filmes ajudam a reforçar o orçamento.

Entre as raridades, está a fita Amor Estranho Amor (1982), longa em que Xuxa aparece em uma cena picante com um adolescente. Petruche avalia a pérola em 5 000 reais, mas, por enquanto, não quer abrir mão dela. Há um ano, o proprietário amarga prejuízos. “Houve uma época em que entravam 35 000 reais por mês, e já aluguei 880 filmes em um só dia”, lembra ele, que chegou a comprar 55 cópias de Titanic. “Atualmente, ganho 2 000 reais, que são gastos com aluguel e outras despesas. Estou na UTI.”

As videolocadoras perderam a força principalmente por causa da pirataria, da TV a cabo e dos serviços especializados na internet, como a Netflix. Até as grandes redes se renderam à crise. Especializada em títulos cult, a 2001 Vídeo fechou as portas em 2015. Hoje, atua apenas no papel de e-commerce.

Em junho, estreia o documentário CineMagia — A História das Videolocadoras de São Paulo, que relembra a trajetória desses pontos desde seu surgimento na cidade, nos anos 70. Filmado a partir de 2014, durante dois anos, ele capturou o último suspiro de algumas cadeias. “Foi tudo muito rápido”, diz o diretor, Alan Oliveira. Neste ano, o cineasta pretende também lançar um livro e uma websérie com as dezenas de depoimentos coletados.

Texto e imagens reproduzidos do site: vejasp.abril.com.br